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Polarização política vira produto e fonte de monetização

Redação Culturize-se

Há uma ironia peculiar no coração do cenário atual da comunicação política. A arquitetura emocional da polarização, marcada por raiva, ansiedade, certezas tribais, tornou-se uma mercadoria negociada não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Como um novo recurso do X (antigo Twitter) torna dolorosamente visível, uma parcela significativa do conteúdo político inflamatório é produzida por pessoas em Bangladesh, Nigéria, Vietnã, Macedônia, Camboja — qualquer um com um smartphone, acesso a ferramentas de IA generativa e vontade de ganhar dinheiro.

Isso não é espionagem. Não é ideologia. Não é um tabuleiro geopolítico. É monetização.

A mudança filosófica aqui é profunda. O discurso político — historicamente enraizado na deliberação democrática, na identidade cívica e na razão pública — foi reformulado como um caminho para a geração de receita. A lógica da comunicação foi invertida: em vez de mensagens serem criadas para persuadir, informar ou mobilizar, elas são criadas porque monetizam. Em um mundo em que os algoritmos se guiam por maiores taxas de publicidade e engajamento, independentemente de autenticidade, precisão ou conexão cultural, esse novo zeitgeist preocupa – e muito.

Nesse novo ecossistema, performances são moldadas para ressonância algorítmica. E como a indignação gera desempenho, o tom tende ao divisionismo, à provocação e à queixa cultural. O conteúdo não precisa ser verdadeiro. Apenas precisa ser clicável.

A teoria da comunicação sempre ensinou que sistemas midiáticos moldam as mensagens que circulam. Quando plataformas introduzem programas de monetização — repartição de anúncios, bônus por viralização, pagamentos a criadores — elas reconfiguram o ambiente comunicativo de maneiras que os usuários raramente percebem. Esses sistemas recompensam velocidade em vez de precisão, volume em vez de profundidade, engajamento em vez de bem-estar. O resultado é uma economia globalizada de manipulação emocional, onde o afeto político se torna uma forma de trabalho.

Foto: Reprodução/Internet

Isso não é o fenômeno organizado das “fazendas de bots” da nostalgia de 2016. É muito mais difuso, descentralizado, oportunista e empreendedor. No YouTube, criadores ensinam públicos em hindi, português, vietnamita e inglês a abrir contas do X baseadas nos EUA, burlar verificações de localização, extrair textos da CNN ou do New York Times, rodá-los em ferramentas de reescrita por IA, adicionar narração sintética e publicar como vídeo. Um tutorial começa explicando o que é um dólar americano, antes de ensinar como criar canais automatizados direcionados especificamente ao público dos EUA. Outro mostra como um adolescente na Índia viralizou com um clipe de beisebol porque “pessoas dos EUA assistem esse tipo de vídeo”.

Esses criadores não são atores políticos — são atores econômicos. Seu objetivo não é inflamar o público, mas extrair valor dele. Ainda assim, a consequência é indistinguível de desinformação intencional. Quando milhões de postagens sintéticas, emocionalmente carregadas e de baixa qualidade inundam as plataformas, elas distorcem percepções. Fabricam a ilusão de consenso político ou caos político. Amplificam os extremos e silenciam o centro. Transformam a razão pública em espetáculo — e o espetáculo em lucro.

Filosoficamente, o problema não é que as plataformas careçam de transparência. O problema é que a transparência não importa quando o ambiente comunicativo recompensa a indiferença. Usuários não verificam quem está por trás das contas que amplificam; as plataformas não reduzem de forma significativa os incentivos a postagens inautênticas; e os criadores continuam produzindo conteúdo de baixa qualidade porque o sistema os incentiva.

Em essência, o mercado colonizou a ágora. A polarização política, antes lamentada como disfunção democrática, foi reinventada como fluxo de receita. Sua volatilidade emocional — medo, ressentimento, certeza — tornou-se matéria-prima de uma economia global de atenção. E até que a lógica da monetização seja confrontada, a economia da polarização continuará florescendo, não como um projeto ideológico, mas como um modelo de negócios.

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