Redação Culturize-se
O boom da inteligência artificial tem impulsionado um dos ralis de mercado mais fortes da década, criando empresas de trilhões de dólares, acelerando ações de semicondutores e transformando a construção de data centers em uma corrida armamentista global. Mas, por trás das avaliações recordes, permanece uma forte divisão entre investidores, tecnólogos e formuladores de políticas sobre se tudo isso representa uma transformação sustentável ou o primeiro tremor de uma bolha especulativa.
Poucas vozes têm tanto peso nesses momentos quanto a de Howard Marks, cofundador da Oaktree Capital, conhecido por suas análises claras dos ciclos de mercado. Para ele, o frenesi atual da IA pode estar aquecido, mas não é irracional. “As avaliações estão altas, mas não loucas”, disse Marks à CNBC na última semana. Para caracterizar uma bolha, ele argumenta, o mercado precisa exibir um inconfundível “excesso psicológico” — uma mania coletiva em que “não existe preço alto demais”. Por esse critério, ele não acredita que a IA tenha atingido o seu ponto de ruptura.
A posição de Marks contrasta com a de outros veteranos do setor. Nick Clegg, ex-chefe de políticas da Meta e ex-vice-primeiro-ministro do Reino Unido, alerta que o risco de uma correção é “bem alto”. O boom da IA, afirma, gerou “avaliações inacreditáveis, malucas” e um ritmo de negociações “a cada hora” que ecoa a escalada pontocom do fim dos anos 1990. Para Clegg, a questão não é se a IA é transformadora — “A IA é real e vai mudar todos os setores”, enfatiza —, mas se a infraestrutura construída para sustentá-la algum dia justificará seu custo.
No centro de sua preocupação está a sustentabilidade dos investimentos dos hyperscalers. As empresas estão despejando “centenas de bilhões de dólares no solo” para erguer data centers, muitas vezes financiados por dívida. A recente decisão da Oracle de assumir mais alavancagem para atender à demanda por IA abalou seu mercado de títulos, reforçando o temor de que o setor esteja construindo rápido demais — e caro demais. “Isso obviamente vai gerar problemas”, disse Clegg, especialmente à medida que a indústria continua apostando em arquiteturas de modelos de linguagem que ele acredita ter limites naturais.
Incertezas
O próprio mercado parece lutar com a mesma incerteza. Um recente pico de volatilidade — o mais acentuado em meses — revelou fissuras no rali movido por IA. O último balanço explosivo da Nvidia não conseguiu impulsionar o mercado como vinha ocorrendo. Investidores de varejo, que animaram ciclos de risco em períodos anteriores, mostraram sinais de esfriamento. Enquanto isso, credores exigem mais garantias de empresas de tecnologia altamente endividadas, e investidores fazem uma pergunta cada vez mais direta: quando todo esse gasto se converterá em lucro?
Essas inquietações reacenderam comparações com a era das pontocom. Naquele período, investidores também acreditavam estar testemunhando uma transformação que mudaria o mundo. E estavam certos — apenas erraram sobre quais empresas sobreviveriam. “A imensa maioria das empresas que abriram capital em 98 e 99 acabou valendo nada”, lembrou Marks. A lição, sugere ele, não é que revoluções tecnológicas sejam ilusórias, mas que costumam inspirar excessos financeiros muito antes de seu valor real ser comprovado.

Essa dinâmica pode estar se repetindo. As avaliações ligadas à IA permanecem historicamente altas, mesmo após correções recentes. O Indicador Buffett — um dos termômetros favoritos de sobrevalorização do mercado — subiu acima de 200%, superando o nível da era pontocom e se aproximando do pico da pandemia. O índice preço/lucro do S&P 500 também está bem acima de sua média de dez anos. E, embora o CAPE ratio não tenha alcançado os níveis das pontocom, aproxima-se de territórios historicamente associados a grandes correções.
Ainda assim, se há uma bolha, ela não se comporta como tal; pelo menos por enquanto. O sentimento dos investidores está surpreendentemente contido em comparação com manias anteriores. A leitura de otimismo da American Association of Individual Investors está próxima de sua média de longo prazo — distante dos picos eufóricos de 2000 ou mesmo do surto dos meme stocks em 2021. Historicamente, bolhas perigosas são alimentadas não apenas por avaliações altas, mas por otimismo esmagador. Neste ciclo, cautela, quando não ceticismo, é o tom dominante.
Clegg destaca outro ponto frequentemente ignorado no debate sobre bolhas: o ritmo lento de adoção real. O Vale do Silício gosta de imaginar que tecnologias são abraçadas da noite para o dia, mas a história sugere o contrário. Computadores pessoais levaram duas décadas para se tornarem mainstream. A IA, ele prevê, seguirá uma trajetória irregular; acelerando em alguns setores, patinando em outros e, no fim, remodelando a economia de forma muito mais gradual do que sugerem seus defensores.
Se há uma bolha, portanto, ela é de um tipo incomum: um boom em torno de uma tecnologia transformadora, marcado por investimentos extraordinários, expectativas elevadas e tensões de mercado inegáveis, mas sem a euforia psicológica que normalmente define uma verdadeira mania. A resposta sobre se o setor está superaquecido ou apenas se adaptando a um mundo remodelado pela inteligência artificial dependerá do que acontecer a seguir: se os lucros virão, se a infraestrutura será sustentável e se o mercado conseguirá equilibrar a crença no potencial da IA com a disciplina necessária para enfrentar suas incertezas.
Por ora, o rali continua. Acelerado, volátil e observado com uma mistura igual de empolgação e apreensão.