Por Reinaldo Glioche
Destaque em Sundance, “Entre Duas Mulheres” aborda com delicadeza e perspicácia as aporias das relações conjugais longas, dando voz e protagonismo aos desejos, ainda que tumultuados e insidiosos, das mulheres. O longa de Chloé Robichaud se desvia do moralismo tacanho e das soluções fáceis tratando consensos e individualidades em suas devidas extensões sem alienar personagens e audiência masculinas, mas os convidando a exercer um olhar mais atento e afetuoso para necessidades submersas no atoleiro da rotina.
Violette (Laurence Leboeuf) está passando uma licença-maternidade difícil, principalmente no que toca a amamentação. Sua libido já não é a mesma e o marido, Benoit (Félix Moati), está tendo um caso com uma colega de trabalho. Já Florence (Karine Gonthier-Hyndman) , vizinha de Violette, começa a sentir desejo sexual novamente à medid que deixa uma depressão para trás. Só que esse despertar esbarra na falta de apetite sexual de seu marido, David (Mani Soleymanlou), que talvez seja sintoma de uma reconfiguração na relação que nenhum dos dois tenha se apercebido.
É Florence quem dá o primeiro passo para entender o processo que está vivendo de redescoberta sexual – e esse passo, em face das circunstâncias, se dá fora de seu casamento. Ela sinaliza a Violette, com quem estabelece uma relação de amizade a partir de uma curiosa situação, esse movimento de reconexão consigo e com seus anseios enquanto mulher. O que acaba fazendo com que Violette também decida por experimentar-se.
O roteiro de Catherine Léger é tão hábil na costura dos conflitos como na oferta das soluções, que jamais parecem impostas aos personagens. Pelo contrário, ao evitar o maniqueísmo, o texto valoriza a angústia e a coragem daquelas mulheres em expor-se em uma fase da vida em que qualquer tipo de exposição é autocensurado.
Robichaud conduz a trama com leveza e sensualidade que abarcam o interesse do espectador de maneira orgânica e profícua. Um daqueles filmes que, como preconiza o meme, não promete nada e entrega tudo.

