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Del Toro abraça imperfeições e oferta compreensão no lindíssimo "Frankenstein"

Por Reinaldo Glioche

“Frankenstein” talvez seja o filme que melhor sumariza a filmografia – e as obsessões – de Guillermo Del Toro. A exuberante produção da Netflix é esteticamente opulenta, com sua ambição gótica permeada por cores saturadas, personagens soturnos e eminentemente fatalistas, mas dotada de uma obstinação pela vida que a eleva aos olhos da audiência.

Del Toro versa sobre sagrado e profano e as angústias da criação, passando pelas vicissitudes da paternidade, o padecimento da vida eterna – e da solidão. Fala, ainda, sobre deuses e monstros e sobre o amor. O mexicano é um romântico inveterado. Sua paixão primordial pelo cinema irradia luminosidade para suas narrativas, embora seus personagens geralmente habitem as sombras. Em “Frankenstein”, as ambiguidades do criar, e do viver, colidem de forma irretratável. Mas Del Toro é, como se sabe, um romântico e oferta compreensão onde jaz o desespero.

A beleza do filme não reside apenas no detalhista e superlativo design de produção, na fotografia robusta, na trilha sonora convidativa ou na confecção de diálogos que temperam filosofia com poesia, mas fundamentalmente na maneira como o cineasta enxerga a criatura, defendida com melancolia e afeto por um brilhante Jacob Elordi. O Frankenstein somos nós. Privados de desejos por um criador impassível, relegados à sobrevivência mais impiedosa, carentes de afeto e entendimento. Somos, também, Victor. O filho que repete os erros do pai; que esconde suas inseguranças na arrogância; que projeta suas paixões, sejam elas carnais ou intelectuais, em esferas edipianas.

Foto: Divulgação

Del Toro é sagaz em compilar todas essas camadas sem prescindir da simplicidade da história de Mary Shelley. O arrojamento temático jamais se sobrepõe aos preceitos espirituais da obra e a forma, sua locução estética, responde por esse fino e bem-vindo equilíbrio. São soluções como escalar Mia Goth tanto no papel da mãe de Victor, como no de Elizabeth, fruto de sua paixão relativamente inconfessa, que tornam a narrativa mais substanciosa, sem entrincheirar teses estranhas aos objetos da obra.

“Frankenstein” é um filme que dialoga com seu tempo e também se arvora como símbolo da obra do mexicano. Isso sem renunciar à atemporalidade da obra original. Feito que o torna ainda mais especial e notável no âmbito do cinema em 2025.

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