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Joy Gregory transforma beleza em resistência

Redação Culturize-se

Parece apropriado que a primeira grande retrospectiva de Joy Gregory na Whitechapel Gallery, em Londres, empreste seu título de um provérbio dito por sua mãe: “você pega mais moscas com mel do que com vinagre.” Em cada sala, a frase ecoa em múltiplos sentidos. As fotografias luminosas de Gregory utilizam a beleza como força subversiva — atraem o espectador com elegância antes de revelar um comentário político cortante. Utilizando processos fotográficos do século XIX, a artista explora temas como raça, gênero e colonialismo — suas obras “açucaradas” seduzem o olhar enquanto desafiam a mente.

A mostra se abre com Autoportrait (1989–90), uma série de autorretratos em preto e branco nos quais Gregory posa como uma modelo de revista. À primeira vista, as imagens evocam a sofisticação da fotografia de moda, mas a intimidade que emanam revela vulnerabilidade e crítica. O vestido entreaberto, as expressões contidas e o rosto parcialmente oculto desmontam o glamour superficial, confrontando a exclusão de mulheres negras na indústria da beleza. A tensão entre o fascínio e o desconforto permanece atual em um mundo saturado por imagens filtradas e ideais inatingíveis.

Beleza e crítica se unem novamente em Objects of Beauty (1992–94) e Girl Thing (2002–04). Na primeira, impressões em calitipia de pentes, presilhas e cílios postiços — ampliadas em escala perturbadora — dissecam a construção da feminilidade. Na segunda, esses mesmos objetos se transformam em silhuetas azuladas e etéreas, convertendo símbolos de vaidade em meditações poéticas sobre identidade e autoimagem.

Foto: Divulgação

O Handbag Project (1996–97) aprofunda o tom político. Criada durante a Comissão de Verdade e Reconciliação da África do Sul, a série reimagina bolsas de luxo que pertenceram a mulheres brancas ricas como relíquias vazias — cascas elegantes que expõem a exploração de trabalhadoras domésticas negras sob o apartheid.

Com Catching Flies with Honey, Gregory comprova que a beleza pode tanto encantar quanto denunciar. Suas fotografias brilham com sensualidade e inteligência, convidando à reflexão sobre como estética, privilégio e história se entrelaçam. A exposição permanece em cartaz na Whitechapel Gallery até 1º de março de 2026.

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