Redação Culturize-se
A série documental “Caçador de Marajás”, disponível no Globoplay, revisita um dos capítulos mais intensos e controversos da política brasileira. A ascensão e queda de Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito por voto direto após a ditadura militar e também o primeiro a sofrer impeachment, em 1992. Com produção da Boutique Filmes e da Waking Up Films, a obra dirigida e roteirizada por Charly Braun combina rigor histórico e narrativa cinematográfica em sete episódios que misturam drama político, conflitos familiares e o peso de uma trajetória que marcou o país.
A série cobre mais de sete décadas da vida do ex-presidente — da infância em Alagoas, nos anos 1950, ao colapso de seu governo —, apoiando-se em um vasto material de arquivo e em depoimentos inéditos de familiares, jornalistas, aliados e adversários. Segundo Braun, a ideia surgiu há dez anos, a partir do desejo de transformar “a era Collor” em uma narrativa que, embora documental, carrega todos os elementos de uma grande trama ficcional. “A meteórica ascensão de Collor e sua brutal queda misturam, de maneira fascinante, uma tragédia familiar e o destino de um país”, explica o diretor.
O documentário também lança luz sobre o papel da mídia na construção do fenômeno Collor. A Globo, por exemplo, reconhece no filme a parcialidade que marcou o último debate televisivo entre Collor e Lula, em 1989, mas evita abordar sua relação com a TV Gazeta de Alagoas, pertencente à família do político. A produção reforça ainda a força do jornalismo da época — em especial das revistas Veja e IstoÉ —, cujas reportagens tiveram impacto direto na opinião pública e nos rumos da política nacional.

Entre os personagens centrais estão Thereza Collor, viúva de Pedro Collor, que teve papel crucial nas denúncias contra o irmão; a ex-primeira-dama Rosane Collor; e a ex-ministra Zélia Cardoso de Mello, ausente dos depoimentos, mas presença marcante no imaginário popular da época. A trilha sonora contribui para o tom melodramático que perpassa a série, com canções emblemáticas como “Pense em Mim” e “Caça e Caçador”, que dialogam com o espírito de uma narrativa em que política e novela se confundem.
“Caçador de Marajás” funciona como um espelho das tensões e fragilidades da democracia brasileira. Ao reconstituir um período em que carisma, escândalos e bastidores familiares se entrelaçaram ao destino do país, o documentário reafirma que, na política nacional, a realidade pode ser mais espetacular — e mais trágica — do que qualquer ficção.