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Em “Casa de Dinamite”, Kathryn Bigelow transforma o apocalipse em introspecção

Redação Culturize-se

Em “Casa de Dinamite”, Kathryn Bigelow retorna ao território que domina como poucos. O ponto de convergência entre política, psicologia e perigo. O filme é um retrato angustiante, quase em tempo real, do que poderia acontecer se um míssil nuclear fosse lançado contra os EUA. Não se trata de uma fantasia futurista nem de um drama de Guerra Fria, mas uma história que poderia se desenrolar hoje, neste exato momento, no mundo em que vivemos.

Primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Direção por “Guerra ao Terror” (2009), Bigelow construiu uma carreira explorando histórias que habitam o limiar entre o medo e o dever. Do suspense explosivo dos soldados que desarmam bombas no Iraque ao esgotamento moral dos agentes da CIA em “A Hora Mais Escura” (2012), seu cinema sempre lidou com os extremos do comportamento humano. “Casa de Dinamite” segue essa trajetória, mas agora o escopo é maior. Não se trata da perda de vidas, mas o fim da vida em si.

A narrativa é contada por um mosaico de perspectivas — soldados em uma base de mísseis no Alasca, assessores da Casa Branca, generais do Comando Estratégico e o próprio presidente dos EUA. O que começa como uma manhã comum em Washington rapidamente se transforma no impensável: um míssil nuclear não identificado é detectado sobre o Pacífico. Leituras de satélite falhas, talvez um ciberataque, tornam sua origem incerta. Inicialmente, acredita-se em erro técnico ou em um teste fracassado da Coreia do Norte. Mas, quando os dados confirmam a trajetória rumo a Chicago, o relógio começa a correr.

Fotos: Divulgação

Bigelow estrutura o filme em torno dessa contagem regressiva, transformando cada segundo em um estudo sobre logística e moralidade. Soldados em Fort Greely lutam para lançar interceptadores do sistema de defesa de US$ 60 bilhões; e falham. A diretora expõe a fragilidade real dessa tecnologia. Na vida real, o índice de sucesso é de apenas 56%. “Não estamos protegidos, não estamos seguros”, disse Bigelow em painel sobre o filme em Nova York. “Você pode gastar US$ 300 bilhões em defesa antimísseis, e ainda assim o sistema não será infalível.”

Essa falha se torna o eixo do filme, não só tecnológico, mas emocional. Em uma das cenas mais comoventes, a capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson), em meio ao caos da Sala de Situação, encontra o dinossauro de brinquedo de seu filho no bolso. O objeto, símbolo da inocência e da extinção, reduz o apocalipse a uma escala profundamente humana.

Essa emoção contida é a marca registrada de Bigelow. Ela transforma o espetáculo em introspecção. Em “Caçadores de Emoção” (1991), refletiu sobre masculinidade; em “Guerra ao Terror”, sobre o vício no perigo; e em “A Hora Mais Escura”, sobre o preço da vingança. Em “Casa de Dinamite”, ela elimina qualquer noção de heroísmo. Restam apenas profissionais fazendo o possível diante do impossível. “É rendição ou suicídio”, diz um assessor ao presidente (interpretado com gravidade contida por Idris Elba).

Mesmo ao retratar instituições — o Pentágono, o governo, as Forças Armadas —, Bigelow mantém o foco nas pessoas. O filme mostra seres humanos enfrentando terror absoluto e ainda assim seguindo em frente. Essa persistência, sugere Bigelow, é tanto nobre quanto trágica. A engrenagem do dever continua girando enquanto o mundo desaba.

Leia também: Kathryn Bigelow alerta para o risco nuclear no excepcional “Casa de Dinamite”

Resíduos nucleares

O impacto do filme também vem do que Bigelow e o roteirista Noah Oppenheim optaram por não mostrar. Não há explosões nem cidades destruídas. O desfecho é ambíguo — não sabemos se Chicago foi atingida ou salva. “Mostrar a explosão seria nos absolver da responsabilidade”, disse a diretora. “Criamos essas armas, vivemos com elas. A ambiguidade nos obriga a perguntar por quê.” Oppenheim acrescenta: “O público está anestesiado pela destruição. Queríamos que sentissem o perigo, não apenas o observassem.”

Esse silêncio confere a “Casa de Dinamite” uma força perturbadora. A estrutura em tríptico — cada ato recontando a crise sob um ponto de vista diferente — amplifica a sensação de inevitabilidade. A cada repetição, o medo cresce, e a ilusão de controle se desfaz.

A gênese do projeto, conta Bigelow, nasceu de sua fascinação pela normalização do perigo nuclear. “Cresci na Guerra Fria, quando nos mandavam esconder debaixo das carteiras em caso de bomba atômica. Era absurdo, mas acreditávamos. Hoje, o risco é maior — e ninguém fala sobre isso.” Esse silêncio, diz ela, é a verdadeira loucura: “Construímos bombas suficientes para acabar com a civilização e aprendemos a conviver com isso.”

Em busca de realismo técnico, Bigelow e Oppenheim consultaram especialistas do Pentágono, analistas da CIA e oficiais do STRATCOM. “Tínhamos um general de três estrelas que dedicou a carreira à defesa antimísseis nos assessorando”, contou Oppenheim. “Queríamos que o público sentisse o peso de saber que competência pode não bastar.”

Mas o coração do filme está nas pessoas. Uma das cenas mais tocantes mostra dois assessores, cientes de que podem ter menos de dez minutos de vida, trocando um breve aperto de mãos antes de voltar ao trabalho. Esse gesto encapsula a tese de Bigelow: mesmo diante da extinção, o ser humano tenta cumprir o dever.

O lançamento é oportuno. Desde a invasão da Ucrânia, Vladimir Putin recorre a ameaças nucleares; e Donald Trump, que já se gabou de seu “botão nuclear”, agora diz não ver sentido em fabricar mais armas. “Já temos muitas”, afirmou. Em algo raro, ele e Bigelow parecem concordar. “Vivemos uma dormência coletiva”, disse ela. “Chamamos isso de ‘defesa’, mas o resultado inevitável é a destruição.”

O filme se soma a um novo ciclo de ansiedade cultural sobre armas nucleares, iniciado com “Oppenheimer”, de Christopher Nolan, e seguido pelo futuro “Ghosts of Hiroshima”, de James Cameron. Mas, enquanto Nolan olhou para o nascimento da bomba, Bigelow encara sua sombra presente. Seu filme não é histórico, é um espelho.

O longa estreou aclamado no Festival de Veneza, onde concorreu ao Leão de Ouro e já está disponível na Netflix.

Como diz o presidente no desfecho silencioso: “Nada disso faz sentido. Construir todas essas bombas, todos esses planos.” Uma frase que permanece — porque, como lembra “Casa de Dinamite”, a contagem regressiva não se dá apenas no cinema. É real.

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