Redação Culturize-se
Na cultura japonesa, a água é mais do que um elemento natural. É fonte de vida, espiritualidade e harmonia social. Essa relação profunda é o ponto de partida da exposição “Fluxos – o Japão e a água”, em cartaz na Japan House São Paulo (JHSP) até 1º de fevereiro de 2026, com entrada gratuita. Com curadoria de Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da instituição, a mostra propõe uma imersão sensorial no universo líquido do Japão, explorando a água sob múltiplas perspectivas; da infraestrutura urbana e avanços tecnológicos às tradições espirituais e expressões artísticas.
A expografia, inspirada no movimento das águas, transforma o segundo andar da JHSP em um ambiente submerso, com iluminação e formas orgânicas que convidam o visitante a fluir entre informações e experiências. No eixo da infraestrutura, o destaque vai para o Canal Subterrâneo de Escoamento da Área Metropolitana de Tóquio, a maior construção de desvio de inundações do mundo. Projetado para conter os excessos provocados pelas chuvas e tufões, o canal exemplifica a sofisticação tecnológica e a capacidade de adaptação do Japão frente aos desafios naturais. Outro núcleo aborda a qualidade e a composição das águas do país, conhecidas por sua pureza e valor mineral, além da importância cultural das águas termais (onsen), celebradas por suas propriedades terapêuticas.
A exposição também mergulha nas práticas rituais e festividades que têm a água como centro. O Uchimizu, ato de espalhar água nas ruas como forma de purificação e contemplação; o Temizu e o Mizugori, rituais de limpeza espiritual; e o Takigyō, meditação sob cachoeiras, são apresentados ao lado de celebrações como o festival Okinami Tairyō, que abençoa o mar e a pesca. Esses gestos revelam uma dimensão simbólica da água, que purifica, conecta e sustenta corpo e espírito.

Entre as obras em destaque, a gravura ukiyo-e de Hiroshige Utagawa, datada de 1857 e pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles, retrata o lago Kawaguchi e remete à tradição da “imagem do mundo flutuante”. Já a instalação “Buloklok”, de Tomoko Sauvage, utiliza esculturas submersas e sons de bolhas captadas por hidrofones para refletir sobre o tempo e o ritmo da respiração. Por fim, Shiori Watanabe apresenta “Sans room”, ecossistema hidropônico de arroz que questiona o conceito de vazio e revela a vida oculta nos espaços artificiais.
Segundo Geenen, a mostra busca dialogar com os debates contemporâneos sobre o uso consciente dos recursos naturais, especialmente às vésperas da COP30. “Queremos que o visitante perceba como o Japão, há séculos, equilibra tradição e inovação na gestão da água. Cada obra, cada dado técnico, é um convite à contemplação e à consciência”, afirma a curadora. Durante o período expositivo, a JHSP oferecerá palestras, oficinas e atividades acessíveis, reafirmando o compromisso da instituição com a inclusão e o diálogo intercultural.