Redação Culturize-se
Uma nova pesquisa da Nexus revela que a inteligência artificial (IA) já faz parte do cotidiano de mais da metade dos brasileiros e que suas implicações vão muito além da tecnologia. Segundo o levantamento, 63% da população já utilizou alguma ferramenta de IA, como ChatGPT, Gemini ou Copilot, e 16% afirmam recorrer a essas tecnologias todos os dias. Os dados indicam um avanço acelerado da incorporação da IA na rotina nacional, especialmente entre jovens de 18 a 30 anos, que também são os mais otimistas quanto ao potencial da tecnologia: 64% acreditam que ela pode tomar decisões melhores que um ser humano em determinadas situações. Entre os que mais confiam no desempenho da IA estão pessoas com ensino médio (56%), quem recebe mais de cinco salários mínimos (55%) e moradores do Norte e Centro-Oeste (53%).
A percepção positiva é majoritária: seis em cada dez brasileiros veem a presença da IA como algo benéfico, enquanto apenas 25% a consideram negativa. A confiança, porém, diminui entre os mais velhos; 57% dos maiores de 60 anos acreditam que a tecnologia não supera o discernimento humano. As diferenças geracionais se refletem também na frequência de uso. Embora 45% dos entrevistados usem IA algumas vezes por mês, 36% ainda nunca tiveram contato direto com essas ferramentas. O estudo mostra ainda que 37% já tiveram uma decisão de compra influenciada por IA, principalmente entre jovens, pessoas com ensino superior e moradores do Sudeste. “Esses dados revelam o tamanho da transformação em curso e a necessidade de preparo e estratégia por parte das empresas”, analisa Marcelo Tokarski, CEO da Nexus.
A pesquisa evidencia também os principais usos da tecnologia. 48% dos brasileiros recorrem à IA para buscar informações gerais, 45% para estudar ou aprender algo novo, 41% para criar conteúdos e 39% para lazer e entretenimento. Outras aplicações vão do auxílio em saúde e bem-estar (38%) à automação de tarefas (38%) e à melhoria da produtividade (37%). Um dado revelador é que 30% já utilizaram IA para compreender temas complexos, como política, economia e ciências, um sinal de que a tecnologia está se tornando parte da construção do conhecimento. Para Tokarski, a adesão crescente reflete uma nova cultura digital: “Estamos falando de um público representativo e ávido por inovação, que molda hábitos de consumo e aprendizado com base na IA”.

Mas enquanto a sociedade brasileira se adapta ao uso das máquinas inteligentes, outro desafio se impõe. Como educar as novas gerações para um mundo cada vez mais digitalizado? De acordo com um levantamento do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio) em parceria com o Redes Cordiais, 60% dos pais e responsáveis afirmam ter dificuldade em acompanhar a vida digital dos filhos. O estudo, que ouviu mais de 300 famílias, expõe não só a falta de preparo técnico dos adultos, mas também as desigualdades no acesso à mediação digital; fator que amplia os riscos à segurança e à saúde emocional de crianças e adolescentes. Plataformas como Discord e jogos online como Free Fire foram citados como ambientes de risco, muitas vezes desconhecidos pelos responsáveis.
Para enfrentar esse cenário, o ITS Rio e o Redes Cordiais lançaram o curso gratuito “Redes de Proteção: Como Proteger Crianças e Adolescentes na Internet?”, com apoio de empresas como Meta, TikTok, Google e YouTube. Voltado a pais, educadores e comunidades escolares, o programa reúne aulas e debates sobre direitos digitais, psicologia, educação e estratégias práticas de mediação parental. Ou seja, métodos para acompanhar e orientar o uso de tecnologias por menores. Além de especialistas, representantes das grandes plataformas ensinam como configurar controles de privacidade, limitar tempo de uso e filtrar conteúdos inadequados. “Não se trata de proibir, mas de construir relações de confiança e diálogo”, explica Clara Becker, diretora executiva do Redes Cordiais. “Queremos oferecer acolhimento e ferramentas para que a internet seja um espaço de desenvolvimento saudável e protegido.”
Entre os especialistas convidados estão Chiara de Teffé, jurista especializada em Direito Digital, e Karen Scavacini, psicóloga e pioneira na prevenção ao suicídio. A médica Renata Coutinho, com experiência clínica no acompanhamento infantojuvenil, também participa, ao lado de influenciadores como Monica Romeiro, do canal Almanaque dos Pais, e Eduarda Duarte (Dudi), criadora de uma comunidade feminina de jovens no Discord. Para a diretora do ITS Rio, Celina Bottino, a proteção no ambiente digital é uma responsabilidade compartilhada: “A educação digital exige um esforço conjunto entre famílias, sociedade civil, empresas e poder público. Precisamos formar adultos capazes de dialogar com esse universo e não apenas reagir a ele”.

Diálogo geracional
Essa necessidade de diálogo entre gerações e de um olhar mais atento sobre os impactos da tecnologia ecoa nas reflexões do filósofo Mario Sergio Cortella. Em uma edição revisada e ampliada de seu livro “Família: urgências e turbulências” (Cortez Editora), o autor retoma temas como convivência, educação e vínculos afetivos sob o prisma de uma era “algoritmizada”. Cortella observa que o excesso de conectividade e a busca por desempenho constante transformaram a família em um espaço de tensões, mas também de possibilidades de reinvenção. Para ele, é preciso trocar a “autópsia” das relações, o lamento pelo que se perdeu, por uma “biópsia”, isto é, um olhar sobre o que ainda está vivo e pode ser curado e reconstruído.
Nos novos capítulos, Cortella discute o impacto da virtualidade nas relações humanas, a adultização precoce e os riscos emocionais de uma vida mediada por telas. “O mundo virtual pode encantar ou enfeitiçar”, escreve, alertando que o equilíbrio é a única forma de preservar a autonomia e o sentido da vida. Ao tratar de temas como autoestima, bullying e o papel da escola, o filósofo propõe uma reflexão sobre o papel da família como um núcleo de presença e de escuta. “O mesmo mundo digital que ameaça crianças e adolescentes também pode nos salvar, se usado com consciência e responsabilidade”, afirma o autor.
O pensamento de Cortella sugere que o avanço tecnológico não é apenas uma questão de inovação, mas de reeducação emocional e ética. Enquanto a IA redefine a forma como os brasileiros consomem informação, tomam decisões e aprendem, pais e educadores enfrentam o desafio de criar uma geração que saiba conviver com as máquinas sem perder o sentido humano das relações.