Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Anna Seidel, a poeta que fala a língua dos números

Redação Culturize-se

A jovem escritora alemã-holandesa rompe fronteiras entre economia e literatura, conquistando reconhecimento internacional e construindo pontes culturais que conectam o mundo, inclusive o Brasil

Existe um espaço entre as línguas que produz desalojamento constante. Para a escritora canadense Anne Carson, esse lugar — nem sempre confortável — é útil porque obriga o pensamento a se reinventar. É nesse interstício que vive Anna Seidel, poeta de origem alemã-holandesa criada em Zurique, cuja trajetória desafia categorizações fáceis. Economista de dia, poeta à noite, modelo ocasional, curadora cultural e consultora financeira, Seidel construiu uma carreira que transforma contradições aparentes em potência criativa.

Formada em economia e filosofia pela Universidade de St. Gallen e por Harvard, com mestrado em literatura pela Universidade de Oxford, Anna trabalhou em fundos de investimento como Dynamo Capital e Blackstone antes de fundar sua própria empresa de consultoria financeira em 2024. Paralelamente, publicou a coletânea de poemas “Desiderium” (2022), teve textos em revistas literárias prestigiadas como Brittle Star e Mantis, e acumulou mais de cinco milhões de visualizações em seus curta-metragens poéticos nas redes sociais.

Foto: Carine Wallauer

“Desde a infância, a identidade através da linguagem esteve no centro da minha escrita”, explica a poeta, que cresceu em constante trânsito geográfico e linguístico. Passou por diversas cidades na Alemanha, Holanda, Estados Unidos e França antes de se estabelecer entre Reino Unido e Itália. “Ao ‘arquitetar’ com palavras, você constrói a sua realidade. Minha poesia tenta captar o que não é traduzível, o que está nos intervalos e tornar acessíveis, por meio da linguagem, diferentes formas de realidade.”

Essa busca pelo intraduzível ganha corpo em “Desiderium” — palavra latina que significa cultivar sentimentos por algo que já não temos mais, mas gostaríamos. A coletânea explora as diversas facetas da memória da infância marcada por deslocamentos geográficos constantes. “Escrever é também observar com atenção. Em outra língua, cada palavra é preciosa”, observa em entrevista à Marie Claire, “é como usar uma lupa para perceber detalhes. Essa curiosidade guia minha escrita.”

O livro atraiu atenção não apenas do meio literário, mas também de grandes marcas de luxo como Chanel, Armani, Dior, Louis Vuitton, Longchamp e Buccellati, interessadas em seu trabalho de narrativa visual, instalações e performances líricas. A conexão com a Chanel, em particular, tem raízes na adolescência. Aos 12 anos, Anna escreveu uma carta a Karl Lagerfeld e, surpreendentemente, recebeu resposta. “Falei para a minha mãe: ‘Precisamos abrir um cofre no banco para guardar essa carta preciosa'”, relembra.

Anos depois, a relação se materializou de forma profissional. Anna não só conheceu a livraria parisiense 7L e o projeto Rendez-vous Littéraires Rue Cambon, como também assistiu ao desfile de Alta-Costura da marca na primeira fila. “É uma relação colaborativa, exatamente nesse diálogo: como podemos contar histórias e inspirar por meio da linguagem do design de moda e da linguagem da literatura.”

Economia e poesia

Equilibrar economia e poesia, contudo, nem sempre foi natural. Anna herdou a parte analítica da mãe e a criativa do pai, mas durante a faculdade chegou a abafar o lado artístico. “Finanças e poesia pareciam incompatíveis. Mas, com o tempo, percebi que só sou completa combinando as duas. É um diálogo. A economia me ajuda a estruturar, a dar moldura social ao que observo. A criatividade preenche essa estrutura com arte e cor.”

Essa síntese singular rendeu reconhecimentos importantes. Em 2023, Anna tornou-se a mais jovem vencedora do Eisenhower Fellowship desde 1953, honraria concedida por suas conquistas nas áreas de arte e negócios. Foi selecionada como uma das “Visionárias” da Louis Vuitton durante o bicentenário do fundador da marca, integrou a equipe curatorial da Bienal de Arquitetura de Veneza de 2025 e foi escolhida como McCloy Fellow 2025. Também participou do Polymath Festival em Londres e foi convidada pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos para o prestigiado Iowa Writers Workshop.

Em 2020, Anna cofundou com a escritora e pesquisadora Caroline King o Napkin Poetry Review, rede que reúne quase cinco mil poetas de diferentes regiões do mundo. “O nome vem da ideia de que grandes ideias nascem em guardanapos, como também a poesia, que muitas vezes começa com um verso anotado rapidamente no papel.” O projeto, que evoluiu para fundação, organiza workshops online e experiências imersivas em locações históricas.

O contato direto com leitores acontece principalmente pelo Instagram (@annacasophie), onde compartilha diferentes formatos de conteúdo literário. Curiosamente, seu maior público é brasileiro. Anna mantém correspondência com um brasileiro de 73 anos apaixonado por poesia e já recebeu de um jovem de 16 anos um rap inspirado em seus escritos. “A experimentação desperta curiosidade para depois dominar a técnica. As plataformas digitais têm sido cruciais para transformar a poesia em algo celebrado e acessível.”

A afinidade com o Brasil, onde esteve em agosto para encontros no Rio e em São Paulo, é também literária. Cita Manuel Bandeira, Marina Colasanti, Carlos Drummond de Andrade e Hilda Hilst como referências, além de João Cabral de Melo Neto, cuja ligação entre poesia e diplomacia a inspira. “Também me interessa a tradição dos poemas com a natureza e a arquitetura”, tema que a levou ao projeto Voice of Commons, apresentado na Bienal de Arquitetura de Veneza este ano.

Na vida pessoal, a literatura permanece central. Casada desde 2023 com Alex Juska, historiador econômico, Anna cultiva o hábito da leitura compartilhada. “Nós dois temos paixão por literatura e estudamos economia — só que em ordem inversa: ele estudou literatura primeiro e depois economia; eu fiz o contrário. Compartilhamos livros e ideias como parte da nossa intimidade.”

Dividindo o tempo entre consultoria financeira, produção literária e projetos culturais internacionais, Anna Seidel mantém viva a ideia de publicar no Brasil; algo que, segundo ela, está “em andamento”. Sua trajetória demonstra que economia e poesia não são campos opostos, mas linguagens complementares de compreensão do mundo. “Com a poesia você tem a oportunidade de dar às pessoas o senso de criatividade e isso pode se tornar um superpoder.”

Isso pode te interessar

Gastronomia

Cervejas sem álcool vivem boom global e atraem investidores, celebridades e gigantes da indústria

Inteligência Artificial

Como distanciamento entre OpenAi e Microsoft afeta setor de IA

Artes Plásticas

Panorama da Arte Brasileira apresenta identidade visual inspirada no tempo

39ª edição do evento do MAM São Paulo aposta na metáfora da areia e em sistemas visuais em transformação

Comportamento

Algoritmos moldam o gosto musical dos brasileiros

Quase metade dos brasileiros já não distingue preferência própria de recomendações automatizadas

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.