Redação Culturize-se
O escritor húngaro László Krasznahorkai é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2025, anunciado na última quinta-feira (9) pela Academia Sueca. O comitê justificou a escolha “por sua obra convincente e visionária que, em meio ao terror apocalíptico, reafirma o poder da arte”. Autor de romances densos e filosóficos, Krasznahorkai, nascido em 1954 na cidade de Gyula, é conhecido por narrativas que mesclam o absurdo, a desesperança e a resistência da imaginação. Com essa vitória, torna-se o segundo húngaro a receber o Nobel, após Imre Kertész, laureado em 2002.
A estreia literária de Krasznahorkai ocorreu em 1985, com “Sátántangó”, romance que retrata a vida miserável de um grupo de camponeses isolados no interior da Hungria, às vésperas da queda do comunismo. A obra, de estrutura labiríntica e capítulos contínuos, chamou atenção pela ousadia formal e foi adaptada para o cinema em 1994 pelo diretor Béla Tarr, com quem o autor manteve longa parceria artística. Em seguida, vieram títulos como “Melancolia da resistência” (1989), “Guerra e Guerra” (1999) e “Seiobo There Below” (2008), confirmando sua reputação como um “mestre do apocalipse”.
Com uma escrita marcada por frases extensas, atmosfera opressiva e humor grotesco, Krasznahorkai é considerado herdeiro da tradição centro-europeia de Kafka e Thomas Bernhard. Seu livro “Herscht 07769” (2021), ambientado em uma pequena cidade alemã à beira do colapso social, foi descrito como um retrato da crise contemporânea e consolidou o autor como uma das vozes mais originais da literatura europeia. O romance mais recente, “Zsömle Odavan”, retorna à Hungria e combina sátira política e alegoria histórica.

A imprensa internacional destacou o caráter visionário e radical de sua obra. O jornal The Guardian descreveu “Herscht 07769” como “sombrio do início ao fim”, enquanto críticos britânicos e alemães celebraram sua precisão na representação da decadência moral e política do Ocidente. A editora britânica Serpent’s Tail, responsável por suas traduções em língua inglesa, afirmou que seus livros “desafiam o leitor e redefinem a experiência narrativa contemporânea”.
Krasznahorkai, que já viveu em Berlim, Kyoto e Nova York, afirma que suas passagens pela Ásia e pelos Estados Unidos influenciaram profundamente seu olhar sobre o mundo. O autor venceu ainda o Man Booker International Prize, em 2015, e o Best Translated Book Award, em 2013, ambos pelo conjunto de sua obra.
A consagração do húngaro ocorre em um momento em que o Nobel de Literatura volta a premiar vozes experimentais e filosóficas, após a vitória da sul-coreana Han Kang, em 2024. Autora de “A Vegetariana”, ela foi reconhecida por “prosa poética que confronta traumas históricos e expõe a fragilidade da vida humana”. A alternância entre diferentes continentes e estéticas confirma a vocação do prêmio para revelar autores que questionam a própria condição humana.
No Brasil, a vitória de Krasznahorkai repercutiu entre escritores e leitores. O recém-eleito imortal da ABL Milton Hatoum, considerado azarão nas apostas deste ano, elogiou o resultado: “É uma escolha justa. Krasznahorkai é um autor que lembra que a literatura ainda pode ser uma forma de resistência.”