Reinaldo Glioche
O Festival do Rio 2025 vem evidenciando um movimento que cresce silenciosamente no audiovisual brasileiro: o fortalecimento de produtoras e distribuidoras que atuam como verdadeiras curadoras de cinema. Em um mercado que se reorganiza diante das transformações do streaming e da retomada das salas, empresas como Retrato Filmes, O2 Play e Boutique Filmes vêm apostando em obras de relevância artística, autoral e com potencial de diálogo internacional.
Fundada em 2024 por Daniel Pech e Felipe Lopes, a Retrato Filmes consolidou-se em pouco mais de um ano como uma das distribuidoras mais promissoras do país. Sua presença no Festival do Rio é expressiva: na edição deste ano, a empresa apresenta os brasileiros “Ruas da Glória”, de Felipe Sholl, e “Criaturas – Uma Aventura entre Dois Mundos”, de Juarez Precioso, além de títulos internacionais como “Dois Procuradores”, de Sergei Loznitsa, “Surda”, de Eva Libertad, e a versão restaurada de “Amores Brutos”, de Alejandro G. Iñárritu — que será relançado nos cinemas em parceria com a MUBI.
A expansão da Retrato também se dá pela curadoria ousada. Em breve lança comercialmente “Alma do Deserto”, vencedor do Queer Lion em Veneza, e “Salão de Baile: This is Ballroom”, premiado no próprio Festival do Rio. Este ano, é responsável pela distribuição de “Sirât”, de Oliver Laxe, escolhido pela Espanha para representar o país no Oscar e longa de abertura da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A trajetória da Retrato, apoiada em uma parceria estratégica com a MUV Capital, reflete uma nova geração de distribuidoras que unem prestígio artístico e visão de mercado.


Na mesma direção, a O2 Play reforça seu papel de ponte entre a produção nacional e o circuito de festivais. A distribuidora ostenta quatro longas no Festival do Rio, cada um com temáticas e estéticas distintas. “Love Kills”, de Luiza Shelling Tubaldini, estreia mundialmente na mostra competitiva Première Brasil com uma trama que mistura vampirismo e crítica social no coração de São Paulo. Já “Querido Mundo”, dirigido por Miguel Falabella e Hsu Chien, aposta em encontros improváveis e em performances premiadas — Malu Galli levou o Kikito de melhor atriz em Gramado. Completam o grupo “Perto do Sol é Mais Claro”, um sensível retrato da velhice dirigido por Regis Faria, e “Timidez”, suspense psicológico baiano assinado por Thiago Gomes Rosa e Susan Kalik.
Outra presença importante é a Boutique Filmes, que anunciou durante a Expocine a distribuição de “Tudo é Rio”, adaptação do romance de Carla Madeira que será lançada pela Vitrine Filmes. O projeto, com direção de Julia Rezende, retoma a parceria entre duas forças criativas do cinema nacional. Reconhecida por produções de impacto como “3%”, “Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime”, “Rota 66 – A Polícia que Mata” e “Mila no Multiverso”, a Boutique investe em narrativas que unem densidade e apelo popular. Além de “Tudo é Rio”, a produtora trabalha em adaptações de “Véspera”, “O Beijo do Rio” e “O Mistério do Cinco Estrelas”, reafirmando seu interesse em traduzir a literatura brasileira para o audiovisual contemporâneo.
Em meio à multiplicidade de títulos, o Festival do Rio consolida-se como uma vitrine de curadorias que acreditam no cinema como experiência coletiva e autoral.