Redação Culturize-se
De 2 a 12 de outubro, o Rio de Janeiro se transforma novamente na capital mundial do cinema. A 27ª edição do Festival do Rio chega carregada de expectativas e com um cardápio generoso: cerca de 300 filmes de mais de 70 países, exibidos em 22 salas comerciais, espaços culturais e até em praças públicas. Em pouco mais de uma década, o festival consolidou-se como o maior encontro cinematográfico do Brasil e um dos mais influentes da América Latina.
Este ano, o público poderá assistir a produções premiadas em Cannes, Veneza e Toronto, além de títulos já escolhidos para representar seus países no Oscar de Filme Internacional. O retorno do voto popular, agora em formato digital e expandido para mostras internacionais, é outro elemento que promete aproximar ainda mais a plateia das decisões artísticas. “Somos um festival para o público e é esse público que forma o Júri Popular”, destacou Ilda Santiago, diretora do evento.
A programação abre com “Depois da Caçada”, de Luca Guadagnino, e encerra com “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, de Chloé Zhao, ambos já reverberando nos principais circuitos de prêmios do mundo. Entre uma ponta e outra, o festival oferece de tudo: cinema autoral, blockbusters independentes, clássicos restaurados e, claro, a Première Brasil, coração pulsante do evento.
A força da Première Brasil
Em 2025, a Première Brasil bate recorde com 124 títulos entre longas, médias e curtas. Nunca a produção nacional esteve tão representada, com obras inéditas de diretores consagrados e novos talentos. A mostra se divide em Competição Principal e Novos Rumos, além de sessões especiais que vão de clássicos restaurados a estreias de séries brasileiras.
O caráter democrático da mostra é reforçado pelo retorno do voto popular: o público poderá avaliar os filmes por QR Code e decidir os vencedores do Troféu Redentor em três categorias. No passado, títulos icônicos como “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, e “Divinas Divas”, de Leandra Leal, receberam o prêmio, consolidando o gosto da plateia como termômetro cultural.
Outro dado importante: a Première Brasil concentra parte da renovação do gênero no cinema nacional, como mostram as estreias de “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar, e “Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias. Esses títulos, protagonizados por estrelas populares, reforçam uma tendência: o terror e o suspense tornaram-se espaços para discutir temas sociais, políticos e familiares sob um olhar brasileiro.

A vitrine carioca para o Oscar
O Festival do Rio tem se consolidado como vitrine para futuros indicados ao Oscar de Filme Internacional. Em 2024, quatro dos cinco concorrentes ao prêmio passaram pelo festival, entre eles o vencedor “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles. Nos últimos 15 anos, oito ganhadores exibiram no Rio antes de conquistar a estatueta — de “O Segredo de Seus Olhos” a “Drive My Car”.
Este ano, 15 filmes já selecionados por seus países chegam ao público carioca, incluindo “O Agente Secreto”, de Kléber Mendonça Filho, escolhido para representar o Brasil. O longa, estrelado por Wagner Moura, tem sido apontado pela imprensa internacional como forte candidato à indicação, com destaque para a performance do ator. Ao lado dele, títulos como “Valor Sentimental”, de Joachim Trier, e “A Voz de Hind Rajab”, de Kaouther Ben Hania, reforçam a presença da safra premiada em Veneza e Cannes.
A edição de 2025 também se destaca pelo número de filmes que chegam laureados de festivais internacionais. Entre eles estão “O Olhar Misterioso do Flamingo”, do chileno Diego Céspedes, vencedor da mostra Un Certain Regard em Cannes, e “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho, que rendeu a Cléo Diára o prêmio de melhor atriz no mesmo festival.
A presença de cineastas como Claire Denis, Agnieszka Holland, Nia DaCosta e Teresa Villaverde reforça a diversidade autoral. Outro marco é a estreia de Juliette Binoche como diretora, com “In-I in Motion”, e sua primeira visita ao Festival do Rio.
Na Première Latina, a argentina Lucrecia Martel retorna com “Nuestra Tierra”, ensaio documental sobre violência contra povos indígenas, exibido em Veneza e Toronto.
Estrelas brasileiras em filmes de gênero
Se a tradição do Festival do Rio é apostar no cinema autoral e político, 2025 também marca o fortalecimento dos filmes de gênero, em especial o terror e o suspense, protagonizados por atrizes conhecidas do grande público. Essa tendência merece destaque próprio, não apenas pelo apelo popular, mas também pela sofisticação estética e temática que esses projetos vêm alcançando.
Bruna Linzmeyer assume o centro de “Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar, uma fábula feminista ambientada em um retiro de mulheres cristãs. Sua personagem, uma coach carismática e manipuladora, conduz a trama para um mergulho em tensões religiosas e políticas. A obra mistura terror psicológico e crítica social, com ritmo slow burn e humor ácido. Estreou no programa Goes to Cannes e agora chega ao Rio com expectativa de repercussão crítica.

Paolla Oliveira, em “Herança de Narcisa”, mergulha no terror psicológico com uma trama de possessão nada convencional. O filme explora a relação tóxica entre mãe e filha sob a metáfora do exorcismo mútuo. Inspirado tanto nos clássicos dos anos 40 quanto em produções recentes como “The Night House”, o longa revisita o gênero com sotaque brasileiro, discutindo ancestralidade e heranças emocionais.
Isis Valverde, por sua vez, protagoniza a adaptação nacional de “Quarto do Pânico”, dirigida por Gabriela Amaral Almeida e exibida na mostra Midnight Movies. A atriz divide a cena com Marco Pigossi e Marianna Santos em uma narrativa claustrofóbica que dialoga com o clássico de David Fincher, mas imprime sua própria marca ao inserir referências locais e explorar o suspense em chave televisiva.
Esse trio de produções mostra que o gênero deixou de ser nicho e passou a integrar a linha de frente da produção nacional. Além disso, a participação de atrizes populares reforça a conexão entre a tradição televisiva brasileira e o cinema contemporâneo, ampliando o alcance das narrativas e garantindo visibilidade no circuito internacional.
Cidade que respira cinema
O festival se resolve, ainda, como uma ocupação cultural da cidade. Sessões gratuitas no Parque Susana Naspolini, no Realengo, e em salas do circuito da Prefeitura democratizam o acesso à sétima arte. O RioMarket, realizado no Armazém da Utopia, promove debates e masterclasses sobre inovação no audiovisual, aproximando o público das transformações da indústria.
Esse caráter múltiplo explica por que o festival resiste e se reinventa mesmo diante de crises econômicas e cortes de verba. A cada ano, reafirma seu papel como vitrine para o cinema brasileiro e internacional, mas também como espaço de formação e reflexão.
