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IMS Paulista apresenta primeira retrospectiva de Gordon Parks no Brasil

Redação Culturize-se

O Instituto Moreira Salles Paulista inaugura, em 4 de outubro, a exposição “Gordon Parks: a América sou eu”, primeira retrospectiva no Brasil dedicada ao fotógrafo americano considerado um dos nomes centrais da história mundial da fotografia. A mostra, que ocupa dois andares do centro cultural na Avenida Paulista, reúne cerca de 200 fotografias produzidas principalmente entre as décadas de 1940 e 1970, além de filmes, periódicos, depoimentos e publicações.

Com curadoria de Janaina Damaceno, assistida por Iliriana Fontoura Rodrigues e Maria Luiza Meneses, a exposição é realizada em parceria com a Fundação Gordon Parks, instituição que detém o acervo do fotógrafo e foi a principal fonte de pesquisa para concepção do projeto. A mostra permanece em cartaz até 1º de março de 2026.

Nascido em 1912 em Fort Scott, Kansas, durante o regime de segregação racial, Gordon Parks (1912-2006) construiu uma carreira multifacetada como fotógrafo, cineasta, músico e poeta. Após a morte da mãe em 1928, enfrentou pobreza e racismo, trabalhando em diversos empregos, incluindo como pianista em clubes e hotéis.

Em 1937, Parks adquiriu sua primeira câmera fotográfica e, no ano seguinte, publicou suas primeiras imagens no St. Paul Recorder, importante jornal da imprensa negra de Minnesota. Posteriormente, trabalhou para a Farm Security Administration em Washington, ao lado de fotógrafos como Dorothea Lange e Walker Evans. Em 1948, tornou-se o primeiro fotógrafo negro contratado pela revista Life, uma das mais importantes do mundo.

Sua obra documentou a vida cotidiana de pessoas negras em estados segregados nos Estados Unidos, a luta organizada do movimento negro pelos direitos civis e as manifestações culturais e religiosas da população afro-americana. A união entre arte e ativismo caracterizou toda sua trajetória, influenciando até hoje artistas como o rapper Kendrick Lamar, os fotógrafos Zanele Muholi e Devin Allen, e a cineasta Ava DuVernay.

Sem título, Nova Iorque, 1963 | Foto de Gordon Parks/ Cortesia da Fundação Gordon Parks.

Séries históricas

A retrospectiva apresenta as principais séries fotográficas de Parks, destacando a produção sequencial como aspecto fundamental de sua obra. Entre os destaques estão “Ella Watson” (1942), cujo ícone “American Gothic” mostra a funcionária da limpeza diante da bandeira americana com vassoura e esfregão, simbolizando a exclusão da comunidade negra.

“De volta a Fort Scott” (1950) documenta o retorno do fotógrafo à cidade natal no Kansas, sob regime de segregação, enquanto “Histórias da segregação no sul” (1956) registra o cotidiano de pessoas negras em estados sulistas, denunciando violência e sistemas de dominação.

A exposição inclui registros históricos do movimento negro organizado, como a Marcha para Washington de 1963, onde Martin Luther King Jr. proferiu seu discurso “I Have a Dream”, e a série “Muçulmanos Negros” (1963), sobre a Nação do Islã e Malcolm X. Também estão presentes retratos de lideranças dos Panteras Negras e do boxeador Muhammad Ali.

Entre as obras exibidas, destaca-se “Um grande dia para o hip hop” (1998), fotografia icônica produzida no Harlem para a capa da XXL Magazine, reunindo 117 personalidades fundamentais do hip hop e estabelecendo um elo temporal entre jazz e hip hop, duas expressões máximas da cultura negra norte-americana.

Conexão brasileira

A mostra ressalta ainda a presença de Parks no Brasil. Em 1961, a pedido da revista Life, o fotógrafo documentou a vida nas favelas cariocas, acompanhando durante semanas o cotidiano da família Da Silva, que migrou do Nordeste para o Rio de Janeiro. A reportagem sobre Flávio, filho da família que sofria de bronquite crônica, teve grande repercussão, resultando em doações dos leitores e inspirando o primeiro filme de Parks, “Flavio” (1964).

Rio de Janeiro, 1961 | Foto de Gordon Parks/Cortesia da Fundação Gordon Parks

Narrado em primeira pessoa, o curta-metragem faz parte da história do cinema da diáspora negra, sendo um dos primeiros filmes dirigidos por um homem negro em solo brasileiro. A exposição apresenta imagens inéditas de Parks no Brasil, incluindo crianças jogando bola na Lagoa Rodrigo de Freitas e registros de um culto evangélico.

O título “A América sou eu” foi extraído de texto que Parks escreveu para a Life em 1968, abordando a consolidação da democracia americana sob regime de segregação racial. Como ressalta a curadoria, a exposição representa “um reencontro com a história negra americana, mas também com um dos mais importantes fotógrafos do século XX, aquele que melhor documentou como a dignidade, o autocuidado e a beleza se tornaram formas de resistir a um sistema que desejava o aniquilamento de pessoas negras”.

A retrospectiva contará com ampla programação e catálogo com imagens e textos da exposição, permitindo ao público mergulhar na obra de um artista comprometido politicamente e marcado pela cumplicidade com seus fotografados.

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