Redação Culturize-se
Morrissey nunca foi um artista de meias palavras. Desta vez, surpreendeu até os fãs mais acostumados às suas polêmicas: anunciou em seu blog pessoal que está colocando à venda todos os direitos relacionados aos Smiths, banda que liderou ao lado de Johnny Marr entre 1984 e 1987. O pacote inclui direitos autorais, artes gráficas, merchandising e até mesmo o nome do grupo.
“Estou queimando todas as minhas conexões com Marr, [Andy] Rourke e [Mike] Joyce. Estou cheio de associações maléficas”, escreveu. Para o cantor, a decisão seria uma forma de se proteger e preservar sua saúde, após anos de disputas e ressentimentos. Marr, guitarrista e coautor de muitas canções, detém legalmente metade dos direitos, o que significa que qualquer comprador terá de dividir decisões futuras com ele.
A venda de catálogos se tornou um dos negócios mais quentes da indústria musical na última década. O movimento começou a ganhar força quando Bob Dylan vendeu 600 músicas por cerca de US$300 milhões em 2020. Em seguida, artistas como Bruce Springsteen, Neil Young, Stevie Nicks, Shakira, Justin Bieber e até o Kiss seguiram o mesmo caminho, garantindo cifras milionárias e transferindo para grandes conglomerados o controle de seus legados musicais.
Empresas como a Hipgnosis Songs Fund e a Universal Music Publishing apostam nesses catálogos como investimentos de longo prazo: os direitos geram receitas constantes por meio de execução em rádios, streaming, publicidade, cinema e séries. Ou seja, cada vez que uma canção é tocada em um comercial ou incluída em uma trilha sonora, há retorno financeiro para os novos donos.
No caso dos Smiths, embora a banda tenha existido por apenas quatro anos, a influência cultural e a longevidade das músicas são inegáveis. Clássicos como “There Is a Light That Never Goes Out” e “How Soon Is Now?” seguem sendo executados em rádios, shows de tributo e produções audiovisuais. Não à toa, o catálogo é avaliado em milhões de dólares, embora Morrissey não tenha divulgado valores.

O momento de Morrissey
A decisão também lança luz sobre a fase recente de Morrissey. Nos últimos anos, sua carreira solo tem enfrentado dificuldades. O disco “I Am Not a Dog on a Chain” (2020) recebeu críticas mornas, e sua relação com gravadoras se deteriorou. Em 2022, ele chegou a acusar a Capitol Records de boicotar o lançamento de “Bonfire of Teenagers”, álbum que permanece sem distribuição oficial.
Paralelamente, suas declarações públicas continuam causando controvérsia. Morrissey tem se envolvido em debates políticos no Reino Unido, muitas vezes assumindo posições conservadoras que o afastaram de parte da base de fãs. Ainda assim, mantém uma agenda de shows relativamente ativa, especialmente em turnês internacionais, onde encontra públicos fiéis.
A venda do catálogo dos Smiths não encerra apenas uma etapa de disputas jurídicas entre seus integrantes: simboliza também a tentativa de Morrissey de se desvincular definitivamente do passado. Para investidores, o negócio pode ser altamente lucrativo; para os fãs, resta a incerteza sobre como o repertório será utilizado no futuro.