Redação Culturize-se
A estreia da série “M – O Filho do Século”, na MUBI, adaptação do romance homônimo de Antonio Scurati sobre a ascensão de Benito Mussolini, acontece em um momento de particular tensão política na Itália e no mundo. A produção italo-francesa, dirigida por Joe Wright (“Desejo e Reparação”) e estrelada por Luca Marinelli, traça em oito episódios a trajetória do ditador fascista desde a fundação dos Fasci di Combattimento em 1919 até o discurso de janeiro de 1925, quando Mussolini assumiu a responsabilidade pelo assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti.
O lançamento da série coincide com o ressurgimento de movimentos neofascistas na Europa e a chegada de líderes de ultradireita ao poder em diversos países. No próprio cenário político italiano, a primeira-ministra Giorgia Meloni, cujo partido Fratelli d’Italia é considerado descendente direto do antigo Movimento Social Italiano, tem protagonizado embates diretos com o autor Antonio Scurati.
O conflito mais emblemático ocorreu em abril do ano passado, quando a RAI, televisão estatal italiana, cancelou um monólogo de Scurati programado para o Dia da Libertação. Inicialmente justificado por “razões de remuneração”, documentos internos posteriormente revelaram “motivações editoriais” por trás da decisão. O próprio Scurati denunciou o episódio como “censura governamental”, especialmente porque suas críticas eram direcionadas ao governo Meloni.
A série, que mistura trama histórica com flashbacks granulados em preto e branco, utiliza uma estética conscientemente provocativa. Wright, conhecido por filmes como “Orgulho e Preconceito” e “Anna Karenina”, solicitou à dupla Chemical Brothers uma trilha sonora metálica que embala cenas brutais da violência fascista, incluindo invasões a jornais socialistas e espancamentos de sindicalistas.

Um dos aspectos mais controversos da produção é sua abordagem antifascista explícita, que chegou a ser rejeitada por serviços de streaming americanos. “Estávamos procurando distribuição nos Estados Unidos, e um dos maiores streamings do mundo nos disse que amaram a série, mas que era muito controversa para eles. O antifascismo hoje ser chamado de controverso é chocante”, revelou Wright em entrevista promocional.
O ator Luca Marinelli, que interpreta Mussolini, defendeu uma representação humanizada do ditador, evitando classificações como “monstro” ou “louco”. “Foi importante excluir adjetivos inúteis. Infelizmente ele era um homem que veio da nossa sociedade. Era um humano que escolheu ser criminal”, explicou o ator romano.
O próprio Scurati traça paralelos entre o fascismo histórico e os movimentos populistas contemporâneos. “Mussolini não é apenas o fundador do fascismo, mas também o primeiro líder populista da história contemporânea”, afirma. “Mussolini era, em muitos aspectos, o arquétipo de todos os líderes populistas subsequentes do século, incluindo os de hoje.”
A controvérsia em torno da série se intensifica pelo contexto político italiano atual. Apenas três dias antes da estreia, centenas de pessoas se reuniram na antiga sede do Movimento Social Italiano, em Roma, para comemorar militantes neofascistas mortos em 1978, fazendo saudações romanas. Quando questionada sobre o episódio, Meloni minimizou sua importância e declarou ter “outras prioridades” além de assistir séries televisivas.
A produção chega às telas em um momento propício para o ressurgimento de tendências autoritárias, já que vivemos a radicalização de uma crise econômica que se estende desde 2008, com efeitos políticos intensos.