Redação Culturize-se
O Brasil definiu seu representante para concorrer a uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar 2026. O escolhido foi “O Agente Secreto”, novo longa de Kleber Mendonça Filho, cineasta pernambucano reconhecido mundialmente por obras como “Bacurau” e “Aquarius”. A decisão, anunciada pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais (ABCAA), encerra uma disputa intensa que envolveu críticas, apoios de peso e até mesmo episódios de polarização entre cinéfilos e parte da indústria.
Mais do que um simples processo de seleção, a escolha revelou as tensões criativas, políticas e mercadológicas que cercam o cinema brasileiro contemporâneo. De um lado, um thriller político estrelado por Wagner Moura, que explora memórias da ditadura e venceu prêmios de destaque em Cannes. Do outro, “Manas”, de Marianna Brennand, um drama social sobre violência contra meninas na Ilha de Marajó, abraçado por estrelas como Sean Penn e Julia Roberts.
O longa de Mendonça Filho se passa no Recife de 1977 e acompanha Marcelo, vivido por Wagner Moura, um especialista em tecnologia que tenta fugir de um passado misterioso. O personagem, contudo, é recrutado pela ditadura militar como informante, e logo percebe que a cidade não será o refúgio que esperava. A narrativa mistura thriller, drama familiar e reflexão política, consolidando o estilo do diretor, que há mais de uma década explora os impactos da história recente do Brasil em personagens comuns.

O filme estreou em Cannes com grande repercussão: conquistou o prêmio de Melhor Diretor para Kleber Mendonça e o de Melhor Ator para Wagner Moura, além de duas honrarias paralelas. A recepção positiva internacional o posicionou como um dos favoritos desde o início do processo de escolha.
Em nota, o diretor celebrou a indicação e reforçou a dimensão política do projeto. “Nossa campanha começou em maio, em Cannes, e agora segue mais forte. Grande abraço por todo o apoio popular e para o comitê de seleção pela confiança nesse filme que acaba de começar a ser visto no Brasil.” A produtora Emilie Lesclaux destacou o orgulho de representar o país, enquanto Moura, em suas redes, afirmou estar “grato e feliz” pela confiança.
O papel do Estado e o impacto cultural
Mais do que um feito artístico, a escolha também tem peso político. O longa contou com apoio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrado pelo Ministério da Cultura e pela Ancine, o que reforça a importância do financiamento público para a produção nacional.
Em agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu elenco e equipe do filme em uma sessão especial no Cine Alvorada, com presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes. Para Lula, o cinema nacional é essencial na preservação da memória e da identidade brasileira. Já a ministra destacou que levar obras como “O Agente Secreto” a palcos internacionais é parte de uma política estratégica de fortalecimento cultural.
Na ocasião, Mendonça Filho resumiu sua visão: “Este filme foi feito no Brasil, com recursos brasileiros e com histórias que falam de nós. Levá-lo para Cannes e estar hoje no Palácio da Alvorada reforça o quanto o cinema pode ser também um ato político e cultural.”
O fator “Manas”
Se a escolha de “O Agente Secreto” parecia natural, a campanha de “Manas”, de Marianna Brennand, deu ao processo contornos inesperados. O filme, baseado em dez anos de pesquisa da diretora na Amazônia, narra a trajetória de Marcielle, adolescente de 13 anos que enfrenta a violência sexual e rompe ciclos geracionais de opressão.
A obra foi abraçada por ícones de Hollywood. Sean Penn, tornou-se produtor executivo do longa e organizou em Los Angeles uma sessão especial com a presença de Julia Roberts, que apresentou a exibição ao lado do ator. Roberts chegou a afirmar que “este filme é afirmativo da vida de uma maneira tão triste, bela e mágica.”
Penn, por sua vez, descreveu “Manas” como “profundamente emocional, comovente e importante”, reforçando que se tratava de um exemplo da força do cinema social brasileiro.
O longa conquistou 27 prêmios internacionais, incluindo o Directors Award em Veneza, e foi apoiado por empresários brasileiros em uma carta que reuniu mais de 70 assinaturas de nomes ligados a setores como varejo, mineração e tecnologia.
Com tantos fatores em jogo, a disputa entre os dois filmes tornou-se um dos processos mais comentados dos últimos anos. Nas redes sociais, internautas se dividiram. Hashtags como #OAgenteSecretoNoOscar ganharam força, ao mesmo tempo em que fãs e defensores de “Manas” viam no apoio de Penn e Roberts uma chance inédita de visibilidade para o Brasil em Hollywood.

A polêmica envolveu até a atriz Fernanda Torres, que precisou se retratar após elogiar o apoio de Penn a “Manas” e ser acusada de “fazer campanha” contra o filme de Mendonça Filho.
Outro episódio controverso veio de uma fala atribuída ao produtor Rodrigo Teixeira, que teria sugerido que o Brasil teria mais chances com outro filme que não “O Agente Secreto”. A declaração, vazada sem contexto, gerou ataques a Marianna Brennand, alvo de hostilidades nas redes. O próprio Teixeira se desculpou publicamente e defendeu a cineasta, classificando os ataques como injustos e reforçando que a escolha havia sido legítima e consensual.
Para o cineasta Walter Salles, vencedor do Oscar 2025 com “Ainda Estou Aqui“, a indicação de Mendonça é simbólica. “O Agente Secreto é um grande filme político sobre os anos 70, um thriller sobre memória e resistência, e também uma carta de amor ao cinema. Essas qualidades indicam que ele terá vida longa. Como disse Fernanda Torres, Kleber e Wagner estão em sua plenitude enquanto criadores.”