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A escolha de "O Agente Secreto" e o descritério brasileiro

Reinaldo Glioche

A escolha de “O Agente Secreto” para representar o Brasil, anunciada ontem pela comissão competente da Academia Brasileira de Cinema, foi marcada por percalços – e polêmicas – inesperados. Desde que ganhou dois prêmios em Cannes em maio, o longa de Kleber Mendonça Filho era dado como a escolha natural pelo Brasil, mas um apoio financeiro robusto ao filme “Manas”, que estreou elogiosamente em Veneza em 2025, junto com outro bem-sucedido longa brasileiro (“Ainda Estou Aqui”), nebulou a disputa.

“Manas” iniciou uma campanha ostensiva pela indicação com lobby junto à comissão e alistando apoios de peso em Hollywood, como Sean Penn, que tornou-se produtor executivo da produção. A aventura de “Manas”, que contou com apoios significativos do empresariado e de pessoas que enxergavam no filme uma aptidão maior ao crivo do Oscar, incomodou o establishment cultural, que já havia mergulhado na candidatura de “O Agente Secreto”, muito por afinidade ideológica com os realizadores.

A disputa resgatou uma face cruel da cinefilia brasileira amparada por um jornalismo cultural despreparado – algo que já havia ganhado evidência nos ataques despropositados e desproporcionais ao filme “Emilia Pérez”, que rivalizou no último Oscar com o filme de Walter Salles.

O assédio virulento, bem como o achaque aos defensores da candidatura de “Manas”, provavelmente melindraram a comissão julgadora que por certo absteve-se de considerar a estratégia de contar com dois filmes brasileiros no Oscar 2026. A possibilidade estaria posta caso a opção por “Manas” se concretizasse. Isso poque “O Agente Secreto” já conta com distribuição garantida nos EUA e com estratégia de lançamento voltada para a temporada de premiações. O filme foi adquirido em Cannes para exibição nos EUA pela Neon, que tem expertisse na promoção de filmes de arte com vistas ao Oscar. São da distribuidora os vencedores recentes “Parasita” (2019) e “Anora” (2024).

Leia também: BTG prepara plano para levar “O Agente Secreto” ao Oscar

A opção por “Manas” destituiria a chance do filme de Kleber Mendonça Filho figurar entre os indicados a Filme Internacional, mas não sublimaria suas chances, já reais, em todas as outras categorias elegíveis. Ao privilegiar “Manas”, o Brasil estaria também credenciando este filme a tentar vagas em outras categorias, além de Filme Internacional, até pelo fato do longa ter estruturado bem e precocemente uma campanha internacional e ainda contaria com os recursos públicos previstos pela seleção oficial como representante brasileiro para impulsionar a candidatura em Filme Internacional. A disputa, oportuno registrar, se anuncia intensa com muitos candidato de ótimo gabarito. O norueguês “Sentimental Value”, o sul-coreano ‘No Other Choice” e o iraniano “It Was Just an Accident” já são favas contadas na categoria.

Em última instância, a polêmica desfavoreceu o fato de que eventuais campanhas combinadas poderiam insuflar as chances de ambos os filmes, já que eles não concorreriam diretamente na vaga de Filme Internacional. O Brasil, embora tenha um excelente candidato em mãos, perdeu uma grande chance. E, ao fazê-lo, revelou uma face descriteriosa, emburrecida e hostil.

O diretor Kleber Mendonça Filho no set de “O Agente Secreto” | Foto: Divulgação

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