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O cinema da escuta de Hirokazu Kore-eda

Redação Culturize-se

A chegada da mostra “O Cinema de Hirokazu Kore-eda” a São Paulo, entre 18 e 24 de setembro no CineSesc e até 5 de outubro no CCBB-SP, oferece ao público brasileiro uma oportunidade rara: acompanhar três décadas de trajetória de um dos mais importantes cineastas contemporâneos. A retrospectiva reúne dez filmes que atravessam a evolução artística de Kore-eda, cuja obra se consolidou pela capacidade de revelar grandeza em pequenos gestos e de transformar dramas íntimos em reflexões sociais universais.

A programação inclui marcos de sua carreira, como “Depois da Vida” (1998), que o projetou internacionalmente ao mesclar realidade e fantasia em um retrato sobre a memória, e “Assunto de Família” (2018), vencedor da Palma de Ouro em Cannes, no qual uma família formada à margem das convenções desafia a ideia de moralidade imposta pela sociedade. O destaque mais recente é “Monstro” (2023), premiado em Cannes pelo roteiro de Yuji Sakamoto e indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional, que reafirma o rigor técnico do cineasta ao desconstruir percepções a partir de múltiplas perspectivas narrativas.

A retrospectiva não é apenas uma celebração de carreira, mas um convite à reflexão sobre a singularidade de um cinema que se mantém fiel às suas raízes mesmo diante da consagração mundial. Kore-eda é presença constante nos principais festivais internacionais e já teve dez filmes exibidos na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, mas seu impacto vai além dos prêmios: sua obra coloca em primeiro plano o silêncio, a escuta e a ternura, em contraste com o barulho e a velocidade do cinema contemporâneo.

O cineasta japonês Hirokazu Kore-eda | Foto: Reprodução/THR

Entre o documental e a ficção

Formado como documentarista, Kore-eda moldou um estilo baseado na observação atenta, no qual o realismo se mistura à fantasia melancólica. Desde sua estreia com “Maborosi” (1995), passando por títulos como “Ninguém Pode Saber” (2004) e “Andando” (2008), até chegar ao reconhecimento global de “Assunto de Família”, sua filmografia é atravessada pela investigação das fragilidades das famílias e pela indagação sobre o que significa pertencer a um núcleo social.

Um aspecto central de sua obra é a presença das crianças, que ocupam papéis ativos e não meramente simbólicos. Kore-eda cria ambientes que favorecem a espontaneidade, resultando em atuações de autenticidade rara. Esse método levou estudiosos a classificarem sua abordagem como uma forma de “escutar a infância”, reconhecendo que o cinema não pode reproduzir esse universo, apenas evocá-lo. Em “O Que Eu Mais Desejo”(2011), por exemplo, as expectativas de dois irmãos separados pelo divórcio dos pais revelam uma fantasia delicada que dialoga com a dureza da vida adulta.

Essa relação entre realismo e imaginação é uma das marcas de seu cinema. Em “Depois da Vida”, os mortos escolhem uma memória para levar consigo, enquanto em “Andando” o peso das pequenas tensões de um almoço familiar expõe décadas de ressentimento. O núcleo da obra de Kore-eda é a família japonesa como espelho da sociedade, mas seus filmes alcançam ressonância global ao abordar afetos humanos universais.

O silêncio como gesto político

Embora frequentemente comparado a Bong Joon-ho, com quem compartilhou o reconhecimento mundial em anos próximos, Kore-eda trilha um caminho distinto. Se o sul-coreano usou a sátira e o choque para expor a luta de classes em “Parasita” (2019), o japonês preferiu a via da compaixão silenciosa. Sua radicalidade reside justamente na paciência: em vez de respostas, ele oferece testemunhos; em vez de discursos, gestos mínimos. Como ele próprio afirmou, “escutar é muito mais difícil que falar”.

Cena do recente “Monstro” | Foto: Divulgação

Esse princípio atravessa sua filmografia e constitui a chave para entender sua importância no cenário contemporâneo. Num tempo marcado pela pressa e pela saturação de estímulos, Kore-eda insiste em desacelerar, em dar espaço para silêncios, olhares e hesitações. O resultado é um cinema que não apenas representa, mas convida o espectador a partilhar a experiência da escuta — seja das crianças, dos marginalizados ou dos afetos que sobrevivem apesar da dureza da realidade.

A retrospectiva em São Paulo, portanto, não é apenas um evento cinematográfico, mas também cultural e político. Ao revisitar obras que tratam de memória, família, infância e pertencimento, o público reencontra um cinema que oferece resistência à superficialidade. Num mundo cada vez mais ruidoso, o cinema de Kore-eda lembra que a verdade pode estar justamente no que permanece em silêncio.

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