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Turismo gastronômico: como a mesa virou o maior cartão-postal dos destinos

Redação Culturize-se

Se antes o ato de viajar estava atrelado quase exclusivamente a paisagens, monumentos e pontos turísticos icônicos, hoje é cada vez mais difícil dissociar essa experiência da mesa em que se come. O turismo gastronômico deixou de ser uma tendência de nicho e se consolidou como protagonista na escolha de destinos, movimentando cifras bilionárias e redesenhando a forma como países e cidades se projetam no cenário global. Dados recentes da Organização Mundial do Turismo (OMT) confirmam essa transformação: a gastronomia já representa 14% das motivações principais de viagens no mundo, em um mercado avaliado em US$ 944,6 bilhões e com projeção de atingir US$ 3,5 trilhões até 2032.

Esse crescimento vertiginoso não é mero acaso. Comer, afinal, vai além de nutrir. É um mergulho em cultura, tradição, ancestralidade e identidade. Ao eleger a culinária local como fio condutor da viagem, o turista contemporâneo busca experiências que conectam prato e território, sabores e histórias, memória e pertencimento.

Do prato à identidade cultural

Pesquisas internacionais apontam que 87% dos viajantes desejam viver ao menos uma experiência gastronômica em suas viagens, enquanto 34% escolhem o destino exatamente pela força da sua culinária. Essa demanda revela um fenômeno que vai além do simples prazer da mesa: a valorização de modos de vida, técnicas de cultivo e preparos ancestrais que revelam a alma de um povo.

O turismo gastronômico, portanto, não se resume a restaurantes estrelados. Ele abrange mercados populares, feiras, aulas de culinária, tours por vinícolas e cervejarias, festas tradicionais e visitas a pequenos produtores. A experiência se completa no campo, quando o viajante conhece a origem dos ingredientes, ou na cozinha, quando entende o ritual que dá forma ao prato típico. Trata-se de um mergulho em símbolos, valores e tradições que, quando preservados e compartilhados, fortalecem a identidade cultural e a economia local.

No Brasil, esse movimento é ainda mais expressivo. Pesquisas recentes revelam que 69% dos brasileiros consideram a culinária local um fator essencial na escolha de um destino. E há uma particularidade que chama atenção: para o viajante brasileiro, comida é também memória afetiva. Não por acaso, é comum ver nos aeroportos malas acompanhadas de caixas de isopor carregando delícias locais. Transportar sabores é transportar identidade.

Peru: a receita de sucesso da América Latina

O exemplo mais emblemático de como a gastronomia pode transformar um destino é o do Peru. Há pouco mais de duas décadas, o país era lembrado sobretudo por Machu Picchu. Hoje, sua capital, Lima, é reconhecida como referência mundial da alta gastronomia, com restaurantes entre os melhores do planeta e chefs que se tornaram ícones culturais.

A revolução começou com Gastón Acurio, pioneiro em colocar a culinária peruana nos holofotes internacionais. Com ele, pratos como o ceviche deixaram de ser apenas refeições típicas para se tornarem símbolos nacionais e patrimônios culturais. O movimento ganhou força com outros nomes, como Virgílio Martínez (Central) e Mitsuharu Tsumura, o Micha (Maido), cujas casas chegaram ao topo do ranking The World’s 50 Best Restaurants.

Mais que prestígio, a gastronomia gerou impacto econômico: o fluxo de turistas no Peru saltou de 1,6 milhão para 3,5 milhões ao ano, consolidando o país como o Melhor Destino Gastronômico do Mundo, segundo o World Travel Awards. Para além do glamour, o sucesso está em valorizar insumos nativos — como as mais de 4 mil variedades de batata andina — e em transformar biodiversidade em experiência imersiva, sempre com forte vínculo a comunidades locais.

Brasil: diversidade como motor

Se o Peru se tornou case global, o Brasil desponta como território de oportunidades. Com uma das cozinhas mais diversas do planeta, fruto da mistura de matrizes indígenas, africanas, portuguesas, alemãs e tantas outras, o país tem no turismo gastronômico um trunfo ainda pouco explorado em larga escala.

Foto: Reprodução/Internet

Cada região brasileira guarda narrativas culinárias próprias. No Sul, os queijos artesanais e a tradição doceira de Pelotas. No Sudeste, a cozinha mineira e o café como símbolos de identidade. Na Amazônia, ingredientes como açaí, cupuaçu e peixes de água doce que impressionam estrangeiros pela originalidade.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) já reconheceu como patrimônios imateriais diversas tradições ligadas à mesa, como o ofício das baianas de acarajé, o modo artesanal de fazer queijo de Minas, e as práticas associadas à cajuína no Piauí. Cada reconhecimento reforça que preservar saberes gastronômicos é também preservar histórias, territórios e modos de vida.

Nordeste: potência em sabor e tradição

Entre todas as regiões brasileiras, o Nordeste ocupa um lugar privilegiado no turismo gastronômico. Não apenas pela diversidade de pratos, mas pelo poder de transformar essa cozinha em narrativa cultural para o visitante.

A culinária nordestina carrega marcas profundas da diáspora africana, visíveis na Bahia com o uso do azeite de dendê e de temperos herdados de países como Nigéria, Angola e Moçambique. Soma-se a isso a herança indígena no uso de raízes como inhame e mandioca, além da fartura de peixes, frutos do mar e frutas tropicais abundantes na região.

Doces de graviola, mangaba e cajá convivem com pratos icônicos como a moqueca baiana, a carne de sol com macaxeira, o baião de dois ou o sarapatel. Cada receita traz em si camadas de história e memória, mas também potencial turístico: roteiros gastronômicos já despontam como atrativos em estados como Bahia, Pernambuco e Ceará, consolidando o Nordeste como um dos polos culinários mais vibrantes do país.

Gastronomia como vetor de desenvolvimento

O impacto do turismo gastronômico vai muito além do prato servido. Atrás de cada restaurante, existe uma cadeia produtiva invisível: agricultores, pescadores, produtores artesanais, transportadores e profissionais do setor de hospitalidade. Esse ecossistema gera renda, valoriza comunidades locais e promove desenvolvimento sustentável.

Projeções do setor são ambiciosas: estimativas da Allied Market Research apontam que o turismo gastronômico deve movimentar US$ 1,94 trilhão até 2031, crescendo a taxas anuais acima de 15%. Outras análises falam em quase 20% ao ano até 2030. Trata-se, portanto, de um segmento culturalmente rico e, ao mesmo tempo, altamente rentável.

Se o turismo de massa tradicional enfrenta críticas pelos impactos ambientais e sociais, o turismo gastronômico se apresenta como alternativa equilibrada. Ele conecta viajantes às comunidades, preserva tradições, fortalece identidades e reposiciona territórios no mapa global.

O Peru já colhe os frutos de sua revolução culinária. O Brasil, com sua diversidade de ingredientes e tradições, tem potencial para seguir caminho semelhante, sobretudo ao colocar a mesa nordestina no centro da narrativa turística.

No fim, é simples: as melhores memórias de uma viagem quase sempre acontecem em torno da mesa. Compartilhar um prato é compartilhar histórias. E é nesse gesto ancestral que o turismo gastronômico se firma como um dos motores mais poderosos do turismo mundial.

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