Redação Culturize-se
“Os ricos batalham para provar que são tão bons que devem manter os outros à distância.” A frase, que abre o novo livro do antropólogo Michel Alcoforado, sintetiza o espírito de “Coisa de Rico” (Todavia). A obra, fruto de 15 anos de pesquisa entre os 0,01% mais ricos do Brasil, mergulha não apenas nos hábitos luxuosos de milionários e bilionários, mas nos mecanismos simbólicos e cotidianos que organizam a desigualdade no país.
Alcoforado não partiu do zero. Carioca de classe média, cresceu entre viagens de férias, restaurantes e escolas particulares. Ainda assim, sentiu-se distante daquele grupo que, nas palavras dele, “vive num tempo diferente”. Para ultrapassar os muros invisíveis que cercam a elite, precisou modificar seu corpo, seus hábitos e até seu guarda-roupa. Um executivo, por exemplo, lhe disse que “gordo daquele jeito” não seria aceito — e o antropólogo acabou emagrecendo 40 quilos em uma dieta rigorosa. Até o vinho que passou a beber foi calibrado para caber no universo estudado.
Essa transformação expõe uma das teses centrais do livro: a riqueza não se define apenas pelo dinheiro, mas pela performance social. Ser rico, no Brasil, significa saber se comportar, falar, viajar e consumir como os ricos esperam.
A pesquisa mostra como as elites erguem barreiras simbólicas para manter os “não ricos” à distância. Um convite inesperado para uma viagem internacional, o uso de apelidos para se referir a celebridades ou a organização de uma sala de modo que o visitante não saiba onde se sentar — tudo se converte em código de exclusão.
Esses códigos se expressam em diferentes perfis. Os “ricos tradicionais”, muitas vezes herdeiros, cultivam o chamado quiet luxury: discrição, móveis herdados, viagens culturais. Já os “novos ricos” ostentam bens e marcas de forma explícita, na tentativa de afirmar sua posição. Mas, no fim, ambos se movimentam pelo mesmo processo: a demarcação de fronteiras sociais.
Essa distinção também se reproduz na geografia. Miami é vista como “pacote pronto” de identidade rica, enquanto bairros como Barra da Tijuca (RJ), Anália Franco (SP) ou Balneário Camboriú (SC) funcionam como vitrines nacionais de ascensão. Escolhas de bairro, escola dos filhos, destinos de férias ou mesmo a disposição de livros nas estantes operam como marcadores sociais.

O espelho da sociedade
Se os bilionários entrevistados não se reconhecem como ricos — sempre há alguém “mais rico” na comparação —, essa lógica da negação contamina toda a pirâmide social. Personagens como “Mário Jorge e Claudete”, que sustentam hábitos de elite no cartão de crédito, ilustram como parte da classe média se esforça para parecer rica, reproduzindo um modelo de distinção que atravessa a sociedade brasileira.
A performance da riqueza, portanto, não é privilégio da elite: é um espetáculo coletivo em que diferentes classes encenam seus papéis, usando símbolos de status em escalas variadas.
Negro, Alcoforado enfrentou barreiras adicionais ao se infiltrar na elite. Era comum ser confundido com garçom em festas ou funcionário em restaurantes de luxo, ainda que vestisse ternos de alta qualidade. Em certos círculos, ouviu tentativas de “embranquecimento”, como quando milionários justificavam sua presença ao dizer que ele tinha “traços indianos ou árabes”.
Esse episódio revela como a questão racial se soma às desigualdades de classe no Brasil. O acesso aos círculos mais exclusivos não depende apenas de dinheiro ou performance: é atravessado pela cor da pele, reafirmando um traço histórico da elite nacional, majoritariamente branca.
O extrativismo das elites brasileiras
Um dos aspectos mais contundentes do livro é o contraste entre a elite brasileira e as elites de outros países. Enquanto nações como Alemanha ou Estados Unidos têm elites vistas como “criadoras de valor” — gerando inovação, empregos e benefícios sociais —, a brasileira opera em modelo extrativista, extraindo mais do que devolve.
Essa característica tem raízes históricas na herança colonial e escravocrata, que moldou uma elite resistente à competição e fechada à mobilidade social. O resultado é uma distribuição de poder concentrada, pouca abertura econômica e baixo investimento em inovação.
Comparada a países emergentes como México, Rússia e Índia, a elite brasileira aparece mal posicionada em indicadores de qualidade institucional e estímulo ao empreendedorismo. Em vez de incentivar ascensão por mérito, preserva privilégios e ergue barreiras simbólicas que dificultam a entrada de novos grupos.
Alcoforado identifica uma tensão permanente entre ricos tradicionais e emergentes. Os primeiros desprezam a ostentação dos segundos, mas não deixam de invejar sua liquidez. Já os novos ricos buscam legitimação, tentando decifrar os códigos da elite mais antiga. Essa disputa reflete um jogo de distinções internas que, ao mesmo tempo, reforça hierarquias e mantém o sistema intacto.
No campo cultural, o autor aponta como a elite transforma a cultura em objeto decorativo: livros comprados por metro, restaurantes e destinos escolhidos mais pelo prestígio do que pela experiência. É a cultura como vitrine, não como prática.
Humor como crítica social
Se o tema é pesado — afinal, trata de desigualdade, racismo e privilégios históricos —, a abordagem do autor é marcada pelo humor. O deboche e a ironia funcionam como antídotos ao deslumbramento e à denúncia direta. Em vez de transformar o livro em panfleto, Alcoforado opta por narrativas que revelam o absurdo do sistema de classes com leveza crítica.
Esse recurso torna “Coisa de Rico” acessível a um público mais amplo, sem perder profundidade. O riso, nesse caso, ajuda a enxergar o ridículo da exclusão e da ostentação, abrindo espaço para reflexões mais profundas.
Ao longo das páginas, fica claro que a crítica de Alcoforado não se restringe aos bilionários. O livro mostra como toda a sociedade brasileira reproduz, em maior ou menor grau, os mesmos códigos de distinção. Do condomínio fechado ao clube de bairro, da viagem internacional ao celular de última geração comprado a crédito, a lógica da exclusão e da performance atravessa classes e espaços.
Nesse sentido, “Coisa de Rico” não é apenas um retrato da elite, mas um espelho da sociedade brasileira. Um país onde o esforço de se diferenciar — e manter os outros à distância — estrutura as relações sociais e alimenta desigualdades históricas.