Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Denzel Washington e Spike Lee retomam colaboração sob novo signo em Hollywood

Redação Culturize-se

Quando Denzel Washington ligou para Spike Lee pela primeira vez para falar sobre “Luta de Classes”, uma ousada reinterpretação de High and Low – No Céu e no Inferno (1963), de Akira Kurosawa, o ator não estava simplesmente à procura de um diretor — ele estava recorrendo a um colaborador de confiança, alguém que caminhou ao seu lado por mais de três décadas em Hollywood. “Na maior parte do tempo em que fui ator, eu nem sequer teria sido autorizado a interpretar um papel como este”, admitiu Washington em entrevista à Vanity Fair. “Nenhum diretor branco nos contratava, e nenhum estúdio nos contratava. Podíamos ser um escravo. Podíamos ser o amigo. Podíamos ser o companheiro. Por isso liguei para o Spike. Eu confio no Spike, e ele confia em mim.”

A confiança, como ambos enfatizam, é a espinha dorsal de sua parceria. Desde “Mais e Melhores Blues” (1990), Lee e Washington construíram uma linguagem cinematográfica própria: um diretor, um ator, ambos dispostos a empurrar um ao outro para novas alturas criativas. Suas colaborações — “Malcolm X”, “Jogada Decisiva (He Got Game)”, “O Plano Perfeito” — são marcos do cinema americano. Com “Luta de Classes”, seu quinto filme juntos e o primeiro em quase vinte anos, eles confrontam temas de poder, música e moralidade, ao mesmo tempo que prestam homenagem a um mestre japonês.

Foto: Divulgação

A trama acompanha David King (Washington), um magnata da música pioneiro que contempla a venda de sua icônica gravadora negra, Stackin’ Hits, justamente quando uma onda de inteligência artificial e publicidade ameaça a indústria. O sequestro acidental de seu filho por um rapper aspirante Yung Felon (interpretado com uma volatilidade crua por A$AP Rocky) força-o a revisitar suas raízes em Nova York e ponderar o custo do compromisso — financeiro, cultural e pessoal. O dilema ecoa a premissa original de Kurosawa, sobre um empresário dividido entre o lucro e a moralidade, mas refratado através de uma lente distintamente americana e distintamente Spike Lee.

Lee insiste que o filme não é um remake, mas uma “reinterpretação de jazz”. Ele compara, no papo com a Vanity Fair, sua abordagem à transformação que Coltrane fez de “My Favorite Things”, de Julie Andrews: a mesma melodia, mas esticada, torcida e impregnada de vigor e improviso. “Eu encarei isso como um riff de jazz sobre Kurosawa”, diz Lee. “Se eu fosse fazer, teria que ser uma reimaginação. E era a minha praia — uma bola grande, suculenta, vindo bem no meio do prato. E eu sinto que mandei para as arquibancadas.”

O próprio filme transborda os marcadores culturais característicos de Lee. A cobertura de King no Brooklyn funciona como um museu da história negra, exibindo telas de Basquiat, retratos de Kehinde Wiley e homenagens a Toni Morrison, muitos retirados da própria coleção pessoal de Lee. Cada corte — desde o pôster de Kamala de Shepard Fairey até os antigos vinis da Stackin’ Hits — insiste na continuidade da conquista artística negra. Da mesma forma, a trilha sonora é curada como um cânone, com Norm Lewis entoando “Oh, What a Beautiful Mornin’” por completo e o jazz latino de Eddie Palmieri ancorando uma sequência de festival de rua no Bronx. Para Lee, isso não são apenas floreios musicais, mas argumentos culturais: uma defesa da autenticidade analógica em uma era de algoritmos e auto-tune.

No entanto, a nostalgia é uma faca de dois gumes. Críticos notaram que “Luta de Classes” muitas vezes parece menos interessado na exploração de classe de Kurosawa do que na batalha contínua de Lee com a cultura contemporânea. Ice Spice, muito promovida na campanha de marketing, aparece brevemente, como uma isca para o público mais jovem, sua presença fugaz servindo principalmente para sublinhar a rejeição de King — e talvez de Lee — à celebridade contemporânea. O personagem de Washington desanca contra a TMZ e a MediaTakeOut, repreende o vício em celular do filho e classifica a música de Yung Felon como “sem alma”. Para alguns, a crítica parece pesada, mais um desabafo do Vovô Simpson do que uma análise incisiva.

Mas a tensão é exatamente o que torna o filme fascinante. Lee oscila entre a veneração do passado e o confronto com o presente. “Faça a Coisa Certa” incensou o hip-hop como voz de protesto. Em “Luta de Classes”, ele retorna às mesmas questões com Washington como seu veículo: o que é cultura autêntica, quem define isso e como os artistas negros protegem seus legados contra a exploração externa e a erosão interna?

Washington traz gravidade a King, um homem dividido entre a preservação de seu império e sua consciência. “O trabalho em equipe faz o sonho funcionar”, ele diz em uma cena, uma fala que Lee alegremente lembra que se originou em “Jogada Decisiva”. Sua história compartilhada permeia a performance, emprestando tons autobiográficos. A fala final do filme — “Vamos trabalhar” (“Let’s go to work”) — é emprestada de “Sindicato de Ladrões”, o filme favorito de Lee, mas também soa como uma declaração de propósito da dupla: o trabalho é sua vocação, sua colaboração é seu ofício.

Na tela, Yung Felon, de Rocky, incorpora a raiva de uma geração excluída por figuras como King. Seu confronto com Washington culmina em um embate tenso, um choque não apenas de personagens, mas de eras e estéticas. Fora da tela, a escalação de Rocky ressalta a disposição de Lee de se envolver, ainda que criticamente, com a vanguarda atual do hip-hop.

A produção em si foi moldada pelas realidades modernas. Distribuído pela A24 e Apple, o filme teve apenas uma exibição limitada nos cinemas norte-americanos antes de ser transmitido globalmente pelo streaming. Para Lee e Washington, que viram “Plano Perfeito” arrecadar US$ 186 milhões em 2006, a mudança é agridoce. “Essa é a natureza do negócio agora — eles também nos deram muito dinheiro para fazer o filme”, diz Washington. Lee acrescenta: “Este filme não teria sido feito sem a Apple. Essa é a verdade.” Washington é mais direto: “Isso se chama show business. Sem negócio, não há show. Sem negócio, não há próximo show.”

Lee classificou o filme como sua colaboração mais pessoal até agora, embora em Cannes ele tenha sugerido que também pode ser a última. Washington, agora com 70 anos, falou abertamente sobre aposentadoria, embora resista ao termo. Citando uma passagem de The Explicit Gospel, de Matt Chandler, ele enquadra seu futuro em termos espirituais, e não profissionais: “Não uso mais a palavra aposentadoria. Estou procurando oportunidades para trazer o propósito de Deus para o meu trabalho.”

Se “Luta de Classes” se revelar seu canto do cisne ou simplesmente o riff mais recente em uma jam session de décadas, ele consolida a parceria Lee-Washington como uma das mais significativas do cinema americano. Seus filmes juntos não são apenas colaborações; são conversas — entre artista e público, passado e presente, autenticidade e adaptação.

“Vamos trabalhar”, conclui o filme. Para Lee e Washington, esse trabalho sempre significou mais do que apenas fazer filmes. Significa interrogar a cultura, celebrar a história e impulsionar o cinema para frente, mesmo quando se olha para trás.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.