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A nova economia do apego digital

Redação Culturize-se

A ascensão da inteligência artificial generativa está inaugurando um novo paradigma nas plataformas digitais: a chamada “economia de apego”. Se antes o objetivo central era capturar a atenção do usuário por meio de cliques e tempo de tela, agora a meta é criar vínculos emocionais, incentivando relações cada vez mais íntimas entre humanos e máquinas.

Esse fenômeno é impulsionado pelo chamado efeito ELIZA, conceito criado ainda nos anos 1960, quando usuários projetavam emoções em softwares rudimentares que simulavam conversas. Hoje, com chatbots dotados de linguagem fluida e até recursos visuais que imitam digitação, a sensação de interação humana é ainda mais convincente; e potencialmente perigosa.

Pesquisadores alertam que o apego artificial pode provocar isolamento social, dependência emocional e sintomas depressivos, sobretudo quando chatbots são usados como confidentes ou substitutos de relações humanas. A intimidade gerada é, em grande parte, uma construção de design, que transforma o usuário em fonte de dados altamente valiosos.

Esse vínculo facilita a manipulação comportamental. As interações emocionais, carregadas de confiança, podem ser exploradas para fins de marketing direcionado ou até de influência política. Assim, a promessa de companhia digital se entrelaça com a lógica de monetização das plataformas, tornando o usuário mais vulnerável.

Além disso, há uma mudança estrutural no modelo econômico: do “modelo de atenção” para o “modelo de apego”. A retenção de usuários passa a depender não só do interesse em conteúdos, mas da relação quase pessoal com a IA. Um cenário que intensifica dilemas éticos e regulatórios.

A busca por regulação

Especialistas defendem medidas para conter a indução emocional excessiva, como restringir o design antropomórfico e garantir transparência sobre o uso dos dados. O debate já chegou a governos e instituições. No Brasil, o Ministério da Gestão e o Serpro lançaram em fevereiro de 2025 uma cartilha sobre IA generativa, orientando servidores para práticas responsáveis, dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê R$ 1,76 bilhão em investimentos.

Iniciativas acadêmicas também se multiplicam. Pesquisadores da Universidade Waseda, no Japão, criaram uma escala para medir vínculos emocionais com IA, enquanto estudos da PUC-SP e do Instituto Lippi analisam impactos na saúde mental e nas relações sociais. Um relatório da Anthropic, criadora do Claude, revelou que embora apenas 2,9% das interações tenham caráter emocional, elas concentram casos significativos de solidão e crise pessoal.

O avanço da “economia de apego” mostra que estamos deixando de apenas usar tecnologia para, em muitos casos, nos vincular emocionalmente a ela. O desafio agora é equilibrar inovação com responsabilidade, evitando que a promessa de proximidade digital se transforme em armadilha emocional.

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