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Cristiano Burlan transforma Nosferatu em meditação sobre memória e solidão

Reinaldo Glioche

Rodado em preto e branco, o novo longa de Cristiano Burlan, “Nosferatu”, é uma reinvenção sombria e poética do ícone do expressionismo alemão. A obra propõe uma meditação sobre memória, solidão e o peso do tempo. O projeto, que terá premiere no Festival de Brasília, em setembro, também ganha contornos de despedida: marca a última aparição de Jean-Claude Bernardet, crítico e pensador fundamental do cinema brasileiro, que morreu em julho deste ano. Amigo e parceiro de Burlan, Bernardet já havia atuado em “Fome” (2015), papel que lhe rendeu prêmio especial no Festival de Brasília, além de “Hamlet” (2015) e “Antes do Fim” (2017), no qual contracenou com Helena Ignez — igualmente presente no novo filme.

A trama acompanha a chegada de Nosferatu a uma cidade em ruínas, carregando não apenas sua maldição, mas os ecos de um passado que insiste em não desaparecer. Perseguido por Van Helsing, ele se desloca por ruas enevoadas e teatros decadentes, onde realidade, delírio e representação se confundem. O vampiro, assombrado por memórias e visões fantasmagóricas, procura obsessivamente por uma atriz — figura ambígua, que pode simbolizar redenção, amor perdido ou mais uma ilusão. É nessa busca que ele enfrenta não só o caçador, mas a si próprio: sua eternidade condenada à repetição de gestos, tragédias e vazios.

Burlan insere essa narrativa num espaço de fronteira entre cinema e teatro, explorando o palco como metáfora da própria representação. “’Nosferatu’ nasce do desejo de revisitar um ícone do cinema expressionista alemão e transportá-lo para um universo poético e decadente, onde o horror se funde à solidão, ao delírio e à memória”, explica o diretor. Para ele, mais do que refazer a clássica fábula, interessava criar uma reflexão sobre os fantasmas que assombram tanto a história quanto o presente.

Foto: Divulgação

Nascido em Porto Alegre, mas radicado em São Paulo, Burlan construiu uma trajetória marcada pela pesquisa estética e pela fusão entre documentário e ficção. Sua Trilogia do Luto — “Construção” (2007), “Mataram Meu Irmão” (2013) e “Elegia de um Crime” (2018) — tornou-se referência ao transformar experiências pessoais de perda em reflexão coletiva. “Mataram Meu Irmão”, por exemplo, conquistou prêmios no festival É Tudo Verdade, no Festival Sesc de Melhores Filmes e o Prêmio do Governador do Estado. Em 2022, venceu o Festival de Gramado como melhor diretor por “A Mãe”.

Com “Nosferatu”, Burlan revisita o imaginário do horror, mas insere nele um gesto existencial e político. “É um filme sobre o tempo que não passa, sobre a impossibilidade de morrer e, talvez, de viver plenamente”, diz. A atmosfera de ruínas, a névoa, os gestos espectrais, tudo remete a um terror existencial, mais ligado à permanência e à repetição do que a sustos ou sangue.

“Nosferatu”, nesse contexto, se legitima como um ato de amor ao cinema: uma homenagem aos mortos, ao teatro, ao gesto de resistência diante do esquecimento e da homogeneização estética que marca parte da produção contemporânea.

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