Redação Culturize-se
“Alien: Earth”, disponível no Disney+, não perde tempo em lembrar de onde veio. Ambientada em 2120, a série mergulha na iconografia do clássico de 1979 de Ridley Scott — corredores mal iluminados, monitores robustos, filmadoras com fios e teclados que parecem ter sido resgatados de um brechó. Apesar do discurso futurista sobre sintéticos, criossono e consciências humanas transferidas para corpos híbridos, o programa insiste em vestir o século XXII com roupas dos anos 1970.
O efeito é deliberado. O showrunner Noah Hawley posiciona “Alien: Earth” como uma ponte direta para o filme original, situando a trama apenas dois anos antes dos eventos de “Alien – O Oitavo Passageiro”. Enquanto continuações e prelúdios apostaram no espetáculo de ação ou no minimalismo elegante de “loja da Apple”, a visão de Hawley se volta ao retrofuturismo. O resultado não busca prever, mas ser fiel: fazer o futuro parecer exatamente como o passado o imaginou.
Essa escolha é tanto um limite quanto uma marca registrada. Não é à toa que fãs de ficção científica ainda romantizam o “futuro usado” cunhado por George Lucas e popularizado por Scott, Syd Mead e pelo design de “Blade Runner”. É tátil, sujo, vivido — e soa imediatamente como autêntico “Alien”. Assim como “Andor” da Disney ou “Blade Runner 2049” de Denis Villeneuve, “Alien: Earth” conquista credibilidade ao se recusar a polir sua estética. Quando Dame Sylvia (Essie Davis) ou Arthur (David Rysdahl) ligam monitores de tubo na Prodigy Corporation, o design não parece ultrapassado — parece canônico.
Há uma ironia nisso. Em 2025, a tecnologia de consumo é mais limpa, rápida e, em muitos aspectos, “mais futurista” que o século XXII da franquia. A mesma cultura que um dia viu as filmadoras portáteis como de ponta agora gasta milhões para recriá-las como relíquias de um futuro atemporal. Essa tensão virou um traço da ficção científica contemporânea: a visão do amanhã feita pelo passado está tão enraizada na cultura pop que não há como atualizá-la.

Ainda assim, a aposta de Hawley parece inteligente. Enquanto outros revivals tentam equilibrar inovação e nostalgia, “Alien: Earth” sabe onde reside sua força. Não busca reinvenções de gênero, nem abraça a fluidez de “Star Trek”, onde o estilo muda a cada versão. Em vez disso, mergulha novamente no horror claustrofóbico e analógico que assustou plateias em 1979.
Isso pode tornar “Alien: Earth” um dos movimentos mais relevantes do gênero no ano. Como “Andor”, usa o design à moda antiga não como truque, mas como base narrativa. E, como “Blade Runner 2049”, prova que olhar para trás ainda pode soar inovador quando aliado a uma boa história.
A questão é se o público verá a estética como declaração renovada ou como preservação. Num cenário em que a nostalgia já se tornou uma indústria, o abraço ao retrofuturismo corre o risco de ser uma zona de conforto. Mas, se os primeiros episódios servirem de parâmetro, a série tem atmosfera suficiente — e aquele terror inconfundivelmente “Alien” — para lembrar por que esse visual sobreviveu por quase meio século.
Afinal, nesse universo, o futuro sempre terá cara de 1979. E, para os fãs, talvez seja exatamente isso o que importa.