Redação Culturize-se
O Quarto Distrito de Porto Alegre, região marcada pela industrialização no século 20 e duramente atingida pela enchente histórica de 2024, ganhou um novo fôlego na semana passada. O Museu de Arte Contemporânea do Rio Grande do Sul (MACRS) inaugurou sua sede própria, em um antigo depósito de veículos do Detran, totalmente reformado. O espaço de 2,3 mil metros quadrados, fruto de um investimento de R$ 5 milhões do governo estadual somado a parcerias privadas, é apontado como um marco para a retomada da área e para a valorização da cena artística gaúcha.
Fundado há 32 anos, o MACRS sempre esteve restrito a salas dentro da Casa de Cultura Mario Quintana, no centro da cidade, o que lhe conferia pouca visibilidade. Agora, com sede independente, o museu se apresenta ao público com entrada gratuita e estrutura ampla: pé-direito alto, paredes brancas para grandes exposições, jardim com esculturas de artistas como Vasco Prado e Patricio Farías, cafeteria sob uma figueira centenária e dois bondes históricos em restauro, que deverão ser usados em atividades educativas. A diretora do museu, Adriana Boff, celebrou o momento em entrevista à Zero Hora: “Estamos entregando o MACRS como ele e a população merecem: na primeira fila.”
A inauguração trouxe consigo também a força simbólica da arte. A instalação escolhida para abrir a nova fase é “Três Casas”, de Nuno Ramos, artista paulista de projeção internacional. A obra, concebida originalmente em 2012, foi remontada especialmente para o contexto de Porto Alegre após a catástrofe climática. Trata-se de três casas em tamanho real, feitas de areia, granito e mármore, que parecem afundar em líquidos viscosos de cores distintas. O trabalho nasceu de uma experiência pessoal de luto do artista, mas ao dialogar com o trauma coletivo das enchentes recentes, ganha novos sentidos. “No luto você decide se vai ficar preso ao que perdeu ou se vai desejar a vida de novo. É a pergunta do luto”, reflete Ramos.
O impacto da instalação não é apenas estético, mas social. Segundo o artista, a enchente revelou a dimensão pública da tragédia: “As pessoas pensam: eu faço parte de um todo, não sou sozinho nesse mundo”. Para ele, remontar a obra no Quarto Distrito é uma forma de transformar a dor local em discurso artístico, afastando a narrativa exclusivamente oficial do poder público. A decisão foi tomada em conjunto com a direção do museu e o curador André Severo, reforçando o papel da arte como espaço de memória e de crítica.

O novo espaço expositivo surge também como resposta a uma demanda histórica da comunidade cultural, que há mais de três décadas cobrava a construção da sede. A secretária de Obras Públicas, Izabel Matte, destacou a dimensão do feito: “É um espaço grandioso, que atende a uma reivindicação antiga e coloca Porto Alegre em outro patamar no cenário das artes.” O projeto arquitetônico, assinado por Tarso Carneiro, alia preservação e modernidade, enquanto o paisagismo, de Christine Loro e Eduardo Assmann, cria um diálogo com o entorno.
O museu abre suas portas com programação inclusiva, oferecendo recursos como maquetes táteis, textos em Braille, audioguia e pictogramas, reforçando o compromisso de acessibilidade. No primeiro fim de semana de funcionamento, a instituição promoveu visitas mediadas inclusivas e uma apresentação da Orquestra Jovem do Theatro São Pedro.
Embora o acervo de cerca de 2 mil obras siga preservado na Casa de Cultura Mario Quintana, por questões de segurança relacionadas às cheias, a nova sede é vista como um divisor de águas. Em uma região que ainda se reergue da destruição causada pelas enchentes, o MACRS assume um papel de farol cultural e social, projetando não apenas o renascimento de uma instituição, mas também a vitalidade de uma cidade que insiste em se reconstruir.