Por Reinaldo Glioche
A verdadeira Era Dourada da história americana foi marcada por corrupção política, concentração extrema de riqueza e racismo brutal. O drama da HBO criado por Julian Fellowes prefere, porém, mergulhar nos visuais suntuosos, nas intrigas românticas e nos ricos detalhes de época. Ainda assim, em sua terceira temporada, a série encontra um novo equilíbrio unindo o glamour a tramas mais profundas e robustas para seus personagens negros, resultando em sua fase mais satisfatória até agora.
A história retoma poucos meses após o final da segunda temporada: Marian Brook (Louisa Jacobson) mantém discretamente um namoro com Larry Russell (Harry Richardson) depois de um noivado fracassado, enquanto sua imponente tia Agnes van Rhijn (Christine Baranski) enfrenta dificuldades financeiras e uma inversão de papéis – agora é sua irmã, Ada Forte (Cynthia Nixon), quem controla as finanças. Do outro lado da rua, Gladys (Taissa Farmiga), irmã de Larry, esconde seu romance com Billy Carlton (Matt Walker) da mãe ambiciosa, Bertha Russell (Carrie Coon), que prefere uni-la ao Duque de Buckingham (Ben Lamb).

Enquanto George Russell (Morgan Spector) evita forçar a filha a um casamento indesejado, está absorvido por um gigantesco projeto ferroviário. No subsolo das mansões, crescem as tensões: o lacaio Jack Trotter (Ben Ahlers) espera que Larry encontre comprador para sua patente de despertador, enquanto a criadagem dos Russell caça um espião infiltrado.
Nas temporadas anteriores, Peggy Scott (Denée Benton), repórter do Brooklyn e secretária de Agnes, era a única personagem negra a transitar pelo universo da Quinta Avenida. Na terceira, o enredo se expande para incluir a alta sociedade negra e explorar as interseções entre comunidades. O romance de Peggy com o Dr. William Kirkland (Jordan Donica) leva o público até os pais ricos dele, em Newport, interpretados por Phylicia Rashad e Brian Stokes Mitchell. Pela primeira vez, a série abre espaço para conversas francas sobre raça e colorismo, incluindo tensões dentro da própria elite negra.
Paralelamente, outros dramas fervem: Ada se junta ao movimento da temperança; uma esposa da Quinta Avenida enfrenta o ostracismo após o marido pedir divórcio; Bertha manobra por poder na rígida hierarquia social de Nova York; e os desafios empresariais de George ameaçam seu casamento.
As atuações seguem sendo um ponto alto – Baranski entrega falas cortantes com precisão cirúrgica; Nixon confere força silenciosa a Ada; e Coon irradia imponência como Bertha. A temporada ainda presenteia o público com cenas que reúnem Baranski e Audra McDonald, cuja Dorothy Scott protagoniza um embate marcante com a Elizabeth Kirkland de Rashad. Participações de Bill Camp como J.P. Morgan, Andrea Martin como médium teatral, LisaGay Hamilton como a sufragista Frances Ellen Watkins Harper e Merritt Wever como a irmã ponderada de Bertha acrescentam textura à narrativa.
O episódio final começa com uma carruagem atravessando a Nova York crepuscular, imprimindo um ritmo acelerado. Fellowes alterna entre mundos paralelos – as elites negras e brancas de Newport e os grandiosos bailes que encerram a temporada – enquanto famílias enfrentam união, rejeição e mudanças nas fronteiras sociais. A campanha de Bertha para ampliar sua influência chega ao momento decisivo, enquanto os Scotts e Kirklands lidam com as reservas coloristas de Elizabeth.

Nem todos os fios narrativos se amarram perfeitamente; alguns relacionamentos começam a se recompor ou se desgastar sem conclusão definitiva, e certas ações tardias de George soam um pouco fora de caráter. Ainda assim, essa opção preserva o fôlego para a próxima temporada, deixando tensões em aberto, incluindo os riscos do empreendimento de cobre de Larry, para reaparecerem.
Visualmente opulenta, dramaticamente intensa e agora mais socialmente complexa, a terceira temporada de “A Era Dourada” prova que, mesmo em um mundo obcecado pelas aparências, histórias mais ricas surgem quando se ousa abrir mais do que apenas as portas do salão de baile.