Reinaldo Glioche
Nos últimos anos, a Walt Disney Company viveu um ciclo intenso de expansão no universo do entretenimento digital. O lançamento do Disney+ em novembro de 2019 impulsionou uma produção acelerada de filmes, séries e animações para abastecer a nova plataforma. No entanto, essa estratégia, que parecia promissora no início, revelou efeitos colaterais severos: desgaste de marcas consagradas como Marvel, Star Wars e Pixar, queda de audiência e bilheterias decepcionantes.
Agora, a gigante do entretenimento busca corrigir o rumo, anunciando cortes na produção, mudanças de posicionamento e uma integração global de serviços de streaming. A transição marca uma tentativa de equilibrar o crescimento no digital com a preservação do prestígio das franquias.
Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, surpreendeu jornalistas recentemente ao admitir publicamente o que fãs e críticos já percebiam: a avalanche de lançamentos do estúdio nos últimos anos desgastou a marca. Após o sucesso de “Vingadores: Ultimato” (2019), a pressão para alimentar o Disney+ levou à multiplicação de séries, animações e especiais, muitas vezes de baixa qualidade.
O caso mais emblemático foi “As Marvels” (2023), sequência de “Capitã Marvel” (2019). O primeiro filme arrecadou US$ 1 bilhão mundialmente, mas a continuação fez apenas US$ 206 milhões. Feige foi direto: “A expansão foi o que desvalorizou a marca Marvel. Foi simplesmente demais”.
Esse padrão se repetiu com outros títulos. “Capitão América: Admirável Mundo Novo” (US$ 415 milhões) e “Thunderbolts” (US$ 382 milhões) ficaram abaixo das expectativas, considerando orçamentos de cerca de US$ 200 milhões cada. O recém-lançado “O Quarteto Fantástico” estreou bem, mas despencou 66% no segundo fim de semana.
A Lucasfilm também sentiu o impacto da produção acelerada. Depois do sucesso estrondoso da segunda temporada de “The Mandalorian” em 2021, a marca Star Wars foi inundada por séries como “O Livro de Boba Fett”, “Obi-Wan Kenobi”, “Ahsoka” e “The Acolyte” – todas registrando quedas semanais de audiência. “Skeleton Crew”, lançada no fim de 2024, sequer entrou no top 10 semanal da Nielsen.
O excesso fez com que a franquia perdesse a aura de evento. “Ir a um filme de ‘Star Wars’ costumava ser algo especial. Há uma diferença entre ter um filme a cada quatro anos e ter três programas no ar o tempo todo”, resumiu um executivo do setor.
Durante esse período, nenhum filme Star Wars foi lançado nos cinemas. A pausa termina em breve, com “The Mandalorian and Grogu” previsto para 2026 e “Star Wars: Starfighter” para 2027, indicando uma volta ao foco nas telonas.

Pixar: o caso mais grave
Se Marvel e Star Wars sofreram, a Pixar passou por um abalo ainda mais profundo. Filmes originais como “Soul”, “Luca” e “Red: Crescer é uma Fera” foram enviados diretamente ao Disney+ durante a pandemia, sem lançamento nos cinemas. Embora a medida tenha levado produções de alta qualidade às casas das famílias, também reduziu o valor percebido da marca.
Quando voltou às salas, o estúdio enfrentou dificuldades. “Lightyear” decepcionou, “Elementos” só cresceu com o boca a boca e “Elio” tornou-se o pior desempenho comercial da história da Pixar, com US$ 139 milhões. A exceção foi “Divertida Mente 2”, que bateu recordes.
A Disney já começou a reduzir produções exclusivas para streaming e busca reposicionar a Pixar como sinônimo de evento cinematográfico.
Mudança de estratégia: menos volume, mais impacto
A autocrítica dentro da Disney resultou em mudanças concretas. A empresa está diminuindo a quantidade de lançamentos no streaming, priorizando projetos com maior potencial de impacto. A lógica é reverter a “retirada de marca” provocada pelo excesso e recuperar o prestígio de seus selos mais valiosos.
Essa transição ocorre enquanto a Disney também reestrutura a forma como divulga resultados de seu segmento digital. A partir do primeiro trimestre fiscal de 2026, a companhia deixará de informar o número de assinantes e a receita média por usuário do Disney+ e do Hulu. O mesmo acontecerá com o ESPN+ a partir do quarto trimestre de 2025.
Segundo a administração, essas métricas se tornaram “menos relevantes” e a divulgação passará a focar na lucratividade. No trimestre encerrado em junho de 2025, o streaming gerou receita 6% maior e um lucro de US$ 346 milhões. No mesmo período, Disney+ e Hulu somaram 183 milhões de assinantes, com expectativa de crescimento acima de 10 milhões no trimestre seguinte, impulsionados por um acordo com a Charter.

Integração global
A mudança mais visível para o consumidor será a fusão total dos catálogos Disney+ e Hulu até 2026, algo que já aconteceu no Brasil. O aplicativo Hulu deixará de existir como plataforma independente, e seu conteúdo – incluindo séries originais de prestígio como “The Bear” e “The Handmaid’s Tale” – será acessado dentro do Disney+.
No mercado internacional, o nome Hulu substituirá o hub “Star”, criando uma identidade global para o conteúdo adulto e diversificado da empresa.
A Disney estima que a unificação gere economia de até US$ 3 bilhões em custos operacionais, além de oferecer ao usuário uma experiência mais fluida e centralizada. Internamente, a expectativa é de melhorias nos sistemas de recomendação, publicidade e gestão de acervo.
A Disney parece ter entendido que a lógica do “mais é mais” não funciona no entretenimento de alto valor. A saturação de lançamentos prejudicou a percepção de qualidade e afastou parte do público fiel de suas maiores marcas.
Agora, com foco em menos produções, integração de serviços e reposicionamento estratégico, a empresa tenta equilibrar rentabilidade e relevância cultural. Ainda assim, a pergunta que permanece é se esse ajuste chegará a tempo de reconquistar o público, ou se a era de ouro de Marvel, Star Wars e Pixar ficará como um capítulo fechado na história do cinema e do streaming.