Redação Culturize-se
Um recente relatório da The Lancet, baseado no estudo Global Burden of Disease 2021, revela que os óbitos por câncer de fígado praticamente dobraram entre 1990 e 2021, marcando um crescimento de 102,5%. O número estimado de mortes atingiu cerca de 483.875 em 2021, quase o dobro do registrado em 1990, enquanto os novos casos chegaram a 529.202, um acréscimo de 114,3% no mesmo período.
Apesar de as taxas ajustadas por idade apresentarem leve queda gradual, o crescimento populacional e o envelhecimento tornaram as estatísticas absolutas alarmantes: mais pessoas vivendo até a faixa etária de risco implica mais diagnósticos e mortes.
Segundo o estudo, três em cada cinco casos são atribuíveis a causas preveníveis: principalmente hepatite B (37,4% das mortes), hepatite C (30,3%), consumo excessivo de álcool (19,1%) e MASLD – doença hepática gordurosa associada ao metabolismo (8,5%). A MASLD, antes chamada de esteatose hepática não alcoólica, aparece como uma preocupação crescente em razão da obesidade, diabetes tipo 2 e colesterol elevado.
Um relatório da Lancet Commission on Liver Cancer projeta que os casos globais devem quase dobrar, de 870 mil em 2022 para 1,52 milhão em 2050, com os óbitos subindo de 760 mil para cerca de 1,37 milhão. A maior parte desse aumento está ligada às condições metabólicas e ao consumo de álcool, enquanto casos por hepatites B e C tendem a decrescer lentamente.
Diagnóstico tardio
O câncer de fígado, principalmente o carcinoma hepatocelular, é um dos mais difíceis de tratar: suas taxas de sobrevivência em cinco anos variam entre 5% e 30%, conforme região e acesso a tratamento. Nos Estados Unidos, por exemplo, somente cerca de 12% dos pacientes sobrevivem cinco anos após o diagnóstico, algo similar ao esperado globalmente.
O diagnóstico tardio é um grande desafio: a doença costuma apresentar poucos sintomas nos estágios iniciais, que incluem perda de peso inexplicada, fadiga e dor abdominal, o que contribui para o alto índice de mortalidade. Além disso, ao contrário de outros tipos de câncer com rastreamento regular (como mama ou colo do útero), não há programas rotineiros de triagem em grande escala para a população em geral.

Em resposta ao cenário, a Lancet Commission propõe um conjunto de políticas públicas eficazes: vacinação universal contra hepatite B, rastreamento de populações de alto risco (como portadores de MASLD, obesidade e cirrose), maior tributação sobre bebidas alcoólicas e embalagens com alto teor de açúcar, além de orientações sobre alimentação saudável e exercício físico regular.
Intervenções como imposto mínimo a bebidas alcoólicas e taxação de refrigerantes teriam potencial para reduzir em até 5% os casos e mortes relatadas por câncer hepático até 2050 em países europeus. Estima-se que ações conjuntas possam impedir até 17 milhões de novas ocorrências e salvar até 15 milhões de vidas até a metade do século.
Além das vacinas, campanhas de conscientização sobre os riscos do tabagismo, obesidade e hábitos alimentares nocivos são consideradas fundamentais. A doença hepática gordurosa (MASLD) já afeta cerca de um terço da população mundial, mas apenas 20% a 30% desenvolvem formas crônicas que evoluem para câncer.
Desafios regionais
Em regiões como Ásia Oriental e África Subsaariana, onde as taxas de hepatite B permanecem elevadas e o acesso a diagnóstico tardio é comum, o impacto letal do câncer de fígado é ainda mais severo. A disparidade entre países de alta e baixa renda tende a se agravar: enquanto em alguns lugares os dados apontam leve queda nas taxas ajustadas, os números absolutos ainda sobem substancialmente devido ao envelhecimento.
A comissão também alertou para o crescimento desigual da doença entre jovens e adultos, principalmente em países em desenvolvimento, onde a transição epidemiológica acelera o impacto do câncer em populações antes protegidas de outras causas de morte