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Minimalismo literário resiste ao excesso e celebra o silêncio como gesto político

Redação Culturize-se

Em tempos de ruído constante, excesso de informação e discursos inflacionados, uma forma de escrita tem ganhado novo fôlego: a literatura minimalista. Com raízes que remontam à tradição do haicai japonês e à prosa enxuta de autores como Ernest Hemingway, o estilo se consagra não apenas por sua contenção formal, mas por sua potência filosófica. No Brasil, nomes como Paulo Leminski, Dalton Trevisan e Millôr Fernandes marcaram, cada um à sua maneira, esse território onde menos é, de fato, mais.

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em sua 23ª edição, homenageou um dos principais representantes dessa estética: Paulo Leminski. Poeta, tradutor e praticante de judô, Leminski encontrou no haicai uma forma de condensar sentimento, humor e crítica social em apenas três versos e 17 sílabas. O gênero, que chegou ao Brasil no século XX pelas mãos de Monteiro Lobato, tornou-se um campo fértil para a experimentação de autores como Alice Ruiz, Manoel de Barros e Mário Quintana.

“Aquele ‘tec-tec’ da máquina de escrever era sagrado em casa”, relembra Estrela Ruiz Leminski, filha do poeta. “Ele escrevia com urgência e leveza, como quem corta palavras para deixar apenas o necessário.” Um de seus haicais favoritos – “pelos caminhos que ando / um dia vai ser / só não sei quando” – parece antever o impacto duradouro da obra de seu pai, que só cresceu após sua morte, em 1989.

Leminski, no entanto, não está sozinho nessa jornada pela concisão. Dalton Trevisan, conhecido como “o vampiro de Curitiba”, levou o minimalismo ao extremo nos minicontos. Em livros como “Ah, é?” e “Desgracida”, o autor produz narrativas de poucas linhas, muitas vezes sem título, que capturam com ironia e crueza a banalidade da vida urbana. Trevisan, que completaria cem anos em 2025, terá sua obra revisitada em nova antologia organizada por Felipe Hirsch e Caetano Galindo, além de seis reedições pela Editora Todavia.

O miniconto é para a prosa o que o haicai é para a poesia: uma síntese que exige do leitor atenção, sensibilidade e imaginação. Augusto Monterroso, autor do célebre “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”, é frequentemente citado como precursor do gênero.

O poeta Paulo Leminski, homenageado da edição de 2025 da Flip | Foto: Portal da Cultura

Outro território do minimalismo é o aforismo. Curtos, mordazes e cheios de sabedoria, os aforismos têm longa tradição – de Heráclito de Éfeso à Bíblia do Caos, de Millôr Fernandes. “Eles são pequenas joias filosóficas, condensam ideias que livros inteiros às vezes não conseguem”, define o filósofo Francisco Bosco. Millôr, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos e Clarice Lispector (mesmo que nem sempre intencionalmente) deixaram frases que circulam até hoje nas redes sociais, nas camisetas e na cultura popular.

Mas por que, num mundo tão saturado de texto e imagem, buscamos formas literárias tão enxutas?

A resposta parece estar no espírito do tempo. A literatura minimalista é uma forma de resistência ao excesso. Seus silêncios, seus gestos contidos, sua recusa a grandes explicações e julgamentos fazem dela uma linguagem do nosso presente. “Não se trata de superficialidade, mas de concentração”, afirma Estrela Leminski. “A brevidade pode ser poderosa.”

A escritora e curadora Elvia Bezerra complementa: “Quantos aforismos estão entranhados em Grande Sertão: Veredas? Ou nas músicas de Milton Nascimento? O Brasil tem uma longa tradição de síntese poética.”

Se hoje vivemos uma crise do excesso, a literatura do quase nada talvez seja mesmo uma das últimas formas de dizer o essencial.

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