Redação Culturize-se
A revista Serrote, uma das mais relevantes publicações culturais brasileiras, chega à sua 50ª edição com um time de peso internacional. Entre os destaques estão a filósofa Judith Butler, a poeta Anne Carson e a crítica Andrea Long Chu, vencedora do Pulitzer de 2023, ao lado de vozes nacionais como Ailton Krenak, Luiz Antonio Simas e Amara Moira. O lançamento acontece na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) no dia 1º de agosto.
Desde 2009, a serrote ocupa posição singular no panorama editorial brasileiro ao apostar no ensaio como ferramenta de investigação crítica. Inspirada em publicações como The New Yorker e London Review of Books, a revista se distingue por dar espaço à reflexão profunda em um país que “muitas vezes valoriza o improviso sobre a reflexão”, como define sua própria missão editorial.
Para esta edição comemorativa, Butler apresenta “A democracia e o futuro das humanidades”, texto que parte do desencanto jovem com o futuro para defender a construção de uma imaginação coletiva. A professora de Berkeley, uma das vozes mais influentes no debate sobre gênero, explora território pouco frequentado ao discutir perspectivas democráticas.
Ailton Krenak contribui com “Pisar suavemente na Terra”, ensaio baseado em conferência realizada na Fundação Casa de Rui Barbosa. O texto dialoga com a temática ambiental abordada também pelo antropólogo Fábio Zuker em “Carbofascismo”, que analisa a ligação entre regimes autoritários e destruição sistemática do meio ambiente.
Um dos destaques é “Sobre gostar de mulheres”, de Andrea Long Chu, ensaio autobiográfico em que a crítica trans conta como começou a se interessar por meninas sem ainda identificar o desejo de ser uma delas. O texto, originalmente publicado na revista n+1, catapultou a autora para a fama sendo o segundo mais lido em 20 anos da publicação.

A poeta canadense Anne Carson participa com “Lições sobre a história da escrita celeste”, texto singular apresentado como “uma conferência escrita pelo céu”. No prefácio, ela/céu escreve: “No começo eu escrevia só para mim, e nada mais existia. Nos milênios não computados anteriores ao big bang… eu tomava notas.”
A diversidade temática se completa com Amara Moira analisando os primeiros registros oficiais de expressões homossexuais no Brasil em “Primórdios de uma linguagem das bichas”, e Luiz Antonio Simas revisitando João do Rio em “Chama João do Rio”.
Visualmente, a edição traz capa da ilustradora Veridiana Scarpelli e ensaio visual de Osvaldo Carvalho, além de trabalhos de artistas como Carmela Gross, Iran do Espírito Santo e o yanomami Sheroanawe Hakihiiwe.
O lançamento na Flip contará com conversa entre Simas e a pesquisadora Juliana Borges, mediada pelo sociólogo Evandro Cruz Silva. Mais que uma edição comemorativa, a serrote #50 reafirma sua missão de preservar o ensaio como “território de liberdade intelectual e rigor ético” em tempos de polarização acelerada.