Reinaldo Glioche
Na mesma semana em que a Paramount Global anunciou um ambicioso acordo de cinco anos com os criadores de “South Park”, Trey Parker e Matt Stone, a estreia da 27ª temporada da série escancarou uma sátira brutal contra o presidente Donald Trump – e, indiretamente, contra a própria emissora que renovou o contrato. O episódio “Sermon on the ’Mount” marca um retorno à forma mais provocativa da série animada, zombando da figura do presidente com imagens grotescas, deepfakes e piadas sexuais escancaradas, enquanto expõe o suposto conluio político entre Trump e a Paramount.
O novo acordo, estimado em US$ 1,5 bilhão, inclui 50 episódios inéditos, todo o catálogo anterior da série e a distribuição global no Paramount+ e no Comedy Central. A nova temporada estreia no Brasil nesta sexta-feira (25), às 22h, no Comedy Central, e no dia seguinte na plataforma de streaming. Segundo Chris McCarthy, co-CEO da Paramount Global, “South Park” continua sendo “mais popular hoje do que em qualquer outro momento de sua história”, e um dos ativos mais valiosos da empresa.
Entretanto, o momento da estreia e o conteúdo do episódio levantaram sobrancelhas. No mesmo dia em que o acordo foi anunciado, a série ridicularizou Trump de forma impiedosa, com o personagem sendo retratado como um amante de Satanás e possuindo um pênis “minúsculo”, tanto na animação quanto em um anúncio satírico exibido no meio do episódio. Além disso, “South Park” critica diretamente a Paramount por ceder a exigências do ex-presidente no contexto de sua recente fusão com a Skydance – uma operação de US$ 8 bilhões que requer aprovação da Comissão Federal de Comunicações (FCC).
Fontes políticas e da mídia especulam que a Paramount possa ter feito concessões a Trump – como o cancelamento do “The Late Show with Stephen Colbert” e a suspensão de iniciativas de diversidade – para obter apoio regulatório à fusão. A própria FCC, sob liderança do conservador Brendan Carr, elogiou o “compromisso da Skydance em eliminar formas insidiosas de iniciativas DEI”.

A crítica de “South Park” não poupou ninguém: além de Trump, o episódio zombou da reação conservadora à esquerda e ironizou o temor da própria série ser cancelada, como Colbert. No final, Cartman e Butters, frequentemente vistos como alter egos de Parker e Stone, tentam se matar por acreditarem que “o woke morreu” e que não há mais nada a satirizar.
A resposta oficial da Casa Branca foi de desdém. Uma porta-voz classificou a série como “irrelevante há mais de 20 anos” e acusou os criadores de falta de originalidade, enquanto internautas se dividiram entre acusações de “esquerdismo” e aplausos pela coragem do programa.
Embora ainda não haja indícios de censura futura, analistas veem o momento como um possível “ponto de inflexão cultural”, em que artistas populares se tornam obstáculos imprevisíveis para alianças políticas corporativas. Se a Paramount esperava uma calmaria com o novo contrato, o sermão de “South Park” provou exatamente o contrário.