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Com "Too Much", Lena Dunham mostra que crescer é aprender a querer

Redação Culturize-se

Lena Dunham sempre foi sinônimo de desconforto cômico. Quando surgiu com “Girls” em 2012, não demorou para ser chamada, com mais ou menos ironia, de “a voz de sua geração”. A série da HBO marcou época ao retratar um grupo de jovens adultas lidando com frustrações precoces, inseguranças exacerbadas e ambições confusas. Era um retrato sem filtros da geração millennial, feita com humor ácido e autoconsciência paralisante. Mais de uma década depois, Dunham volta à televisão com um tom surpreendentemente diferente. Em “Too Much”, nova comédia romântica da Netflix, ela troca o sarcasmo pelo afeto e o desdém pelo desejo de tentar – ainda que tentar signifique se expor, se machucar e, inevitavelmente, se transformar.

Co-criada por Dunham e estrelada por Megan Stalter (“Hacks”), “Too Much” acompanha a história de Jessica, uma nova-iorquina que, após uma separação dolorosa, decide aceitar um trabalho temporário em Londres. Lá, ela conhece Felix (Will Sharpe), um músico introspectivo e emocionalmente abalado. O que se segue parece, à primeira vista, a fórmula clássica da comédia romântica: mulher desajustada embarca numa nova aventura e encontra um homem igualmente imperfeito. Mas a série está mais interessada no que essas pessoas trazem consigo do que no que precisam deixar para trás.

É aí que Dunham reinventa o gênero sem subverter suas bases. “Too Much” não tem vergonha de ser uma comédia romântica tradicional. Ela não tenta “corrigir” o gênero, nem ironizá-lo. Ao contrário, abraça seus clichês com sinceridade, mas atualiza a lógica emocional: o amor aqui não é um prêmio, mas uma possibilidade real – e imperfeita – de reconstrução. Jessica e Felix já se gostam, se divertem juntos, têm química, sexo desajeitado (em cenas dirigidas com ternura e senso de humor por Dunham), e enfrentam um obstáculo mais difícil que qualquer diferença de origem ou rotina: eles mesmos.

Fotos: Divulgação

Ambos carregam traumas, vícios e inseguranças. Jessica é obcecada pela nova namorada do ex – mas não por ciúme ou competição estética, e sim porque Wendy, interpretada por Emily Ratajkowski, representa aquela vida “perfeita” fabricada por redes sociais, contra a qual Jess se vê constantemente em desvantagem. Felix, por sua vez, vive às margens da sobriedade, tem uma relação turbulenta com a família e teme estar velho demais para continuar sendo um “cara de banda”. São adultos nos seus 30 e poucos anos tentando dar sentido à vida após desilusões amorosas, frustrações profissionais e uma juventude emocionalmente desgastante.

Dunham, que agora tem 39 anos, parece ter deixado para trás a pose blasé e o medo de querer demais. Se em “Girls” havia uma recusa teimosa em se entregar a qualquer expectativa, em “Too Much” existe a coragem de admitir que se deseja algo – e que se está disposto a sofrer por isso. Esse deslocamento geracional é também um amadurecimento artístico: Dunham continua falando sobre os dilemas de sua geração, mas agora os encara como problemas a serem enfrentados, e não apenas debochados.

Mesmo personagens que seriam facilmente vilanizados em outra narrativa – como Wendy, a nova namorada “perfeita” – recebem um tratamento empático. A raiva da protagonista se volta para o ex (Michael Zegen), e não para a mulher com quem ele está. E, ao contrário de outras comédias românticas que giram em torno da insegurança física da heroína, “Too Much” nunca coloca em dúvida o desejo que Felix sente por Jess. A série trata o corpo e a autoestima da protagonista com naturalidade e respeito – algo ainda raro no gênero.

O elenco coadjuvante brilha em participações certeiras: Rhea Perlman, Rita Wilson, Naomi Watts, Richard E. Grant, Andrew Rannells, Stephen Fry e até Andrew Scott, em uma participação relâmpago memorável. Mas o coração da série é mesmo o casal principal. Megan Stalter entrega uma das atuações mais sensíveis do ano como uma mulher simultaneamente engraçada, inteligente, vulnerável e corajosa. Will Sharpe, por sua vez, equilibra perfeitamente charme, introspecção e tristeza, construindo um personagem que é tão reparador quanto danificado – e que não precisa deixar de ser uma coisa para ser a outra.

Se há um problema, está no final apressado, que destoa da profundidade emocional cultivada ao longo da temporada. Ainda assim, “Too Much” reverbera. Não por ser revolucionária, mas justamente por ser simples, gentil e sincera. Num cenário saturado de comédias românticas “desconstruídas”, a série de Lena Dunham ousa ser uma comédia romântica romântica – e isso, hoje, já é quase um gesto radical.

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