Redação Culturize-se
A edição de 2025 do Festival de Cinema de Veneza promete uma avalanche de astros e ambição cinematográfica, com uma programação que sinaliza a crescente dominância das produções americanas e das plataformas de streaming no circuito global de festivais. A seleção, revelada na íntegra nesta terça-feira (22) pelo diretor artístico Alberto Barbera, é uma das mais amplas e de maior destaque dos últimos anos, combinando o glamour de Hollywood, o cinema autoral arrojado e uma impressionante variedade de documentários.
Netflix, Amazon e outros gigantes do streaming mais uma vez ocupam o centro do palco em Veneza. “Jay Kelly”, de Noah Baumbach – estrelado por George Clooney e Adam Sandler – competirá pelo Leão de Ouro e marca a quarta colaboração de Baumbach com a Netflix. Kathryn Bigelow retorna à ficção com “A House of Dynamite”, um thriller político centrado em um ataque iminente de mísseis aos EUA, também concorrendo ao prêmio máximo. Guillermo del Toro entra na disputa com seu aguardado “Frankenstein”, enquanto Jim Jarmusch retorna à Competição após décadas com “Father Mother Sister Brother”.
Barbera, em coletiva de imprensa e entrevista ao Deadline, mostrou-se visivelmente orgulhoso da programação que montou. “Consegui 95% dos filmes que queria”, afirmou. “Há grandes filmes, grandes nomes e grandes cineastas, mas também muitas descobertas e surpresas.” A seleção de documentários, que Barbera classificou como “muito, muito forte”, inclui títulos como “Megadoc”, um olhar dos bastidores sobre Megalopolis, de Francis Ford Coppola, dirigido por Mike Figgis, e “Below the Clouds”, de Gianfranco Rosi, descrito por Barbera como possivelmente “ainda mais impressionante” que seus trabalhos anteriores.
Um dos títulos mais comentados é “After the Hunt”, de Luca Guadagnino, uma produção da Amazon MGM Studios estrelada por Julia Roberts, Ayo Edebiri e Andrew Garfield. O filme, sobre uma professora universitária (Roberts) enfrentando crises profissionais e segredos do passado, será exibido fora de competição por escolha do diretor e do estúdio. “A Amazon acredita muito no filme, e ele certamente será uma aposta para o Oscar”, comentou Barbera, explicando a decisão estratégica de priorizar a temporada de prêmios em vez da competição.
Outros títulos aguardados incluem “In the Hand of Dante”, de Julian Schnabel, com Oscar Isaac, Martin Scorsese, Gal Gadot e Gerard Butler. O filme será exibido fora de competição após uma longa disputa entre o diretor e os financiadores sobre sua duração e estilo visual. Barbera confirmou que Schnabel venceu a batalha: “Ele lutou por sua versão, e é essa que será exibida em Veneza.”
A presença americana não se limita aos nomes por trás das câmeras. O tapete vermelho promete um desfile de grandes estrelas: Julia Roberts, George Clooney, Emily Blunt, Idris Elba, Jacob Elordi, Cate Blanchett e até Dwayne Johnson estão ligados a filmes da seleção. Embora nem todos compareçam – Jason Momoa, por exemplo, está filmando o terceiro “Duna” -, Barbera espera que o Lido esteja “absolutamente lotado de estrelas”.
O filme de abertura do festival será “La Grazia”, o novo trabalho do mestre italiano Paolo Sorrentino, estrelado por Toni Servillo e Anna Ferzetti. Envolto em segredo, o filme acompanha os últimos dias de uma fictícia presidência italiana e, segundo Barbera, remete à elegância e ao mistério de “As Consequências do Amor”, obra anterior do diretor.

Apesar do entusiasmo, a seleção também reflete transformações mais amplas na indústria cinematográfica. Estúdios tradicionais seguem pouco representados – uma realidade reconhecida por Barbera. As plataformas de streaming e os estúdios independentes preencheram esse espaço, moldando não apenas o financiamento dos filmes, mas a dinâmica dos festivais internacionais.
O júri da Competição oficial será presidido por Alexander Payne, uma escolha que gerou controvérsia devido a acusações passadas feitas contra ele pela atriz Rose McGowan. Barbera abordou diretamente a questão: “Entendemos que essa situação foi resolvida… Ela não avançou além da alegação, e Alexander se explicou publicamente na época.”
Em meio ao glamour e à política, a paixão de Barbera pelo cinema segue inabalável. Ele descreveu os desafios logísticos da programação como “um pesadelo”, mas também abraçou os debates acalorados e as demandas dos estúdios. “É a parte que menos gosto do trabalho”, admitiu, “mas também é o que faz o festival ser algo vivo e em constante evolução.”
Com sua edição de 2025, o Festival de Veneza reafirma seu papel como uma vitrine de prestígio do cinema global – cada vez mais moldado pelas forças de Hollywood e pelas ambições das plataformas digitais. Seja por meio de estreias deslumbrantes, campanhas pelo Oscar ou cineastas defendendo sua visão artística, o Lido volta a ser o palco onde arte e indústria cinematográfica colidem.