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Entre o desejo e o silêncio: Machado de Assis sob a lente da psicanálise

Redação Culturize-se

A obra de Machado de Assis permanece, mais de um século após sua morte, como uma das expressões mais sofisticadas da subjetividade moderna na literatura brasileira. Seus personagens, marcados por ambivalências, recalques e racionalizações, oferecem terreno fértil para uma leitura psicanalítica que revela os labirintos do inconsciente burguês oitocentista. Ao inverter a linearidade do romance realista e ao deslocar a narrativa para o interior das motivações humanas, Machado antecipa muitos dos questionamentos que Sigmund Freud sistematizaria a partir de 1900 com “A Interpretação dos Sonhos”.

A começar por “Dom Casmurro” (1899), talvez o romance machadiano mais intensamente debatido, encontramos um narrador cuja angústia gira em torno de uma suspeita nunca confirmada: a traição de Capitu. Freud observava que “o neurótico se comporta como um poeta, mas ignora que suas fantasias são fantasias” (Freud, “A Interpretação dos Sonhos”, 1900). Bentinho, figura típica do homem em descompasso com seus afetos, narra sua história de amor a partir de um ponto de vista claramente comprometido. Sua necessidade de controle e de domínio do discurso expõe um Eu fragilizado, que tenta organizar a narrativa como forma de recalcar a verdade insuportável – não a da traição, mas a do desejo que escapa ao sujeito.

A escrita de Machado, nesse sentido, opera como um trabalho do sonho: desloca, condensa e simboliza. Lacan, em sua releitura da psicanálise freudiana, afirmou que “o inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), o narrador, já morto, revisita sua vida como se reorganizasse um arquivo de restos, traumas e frustrações – não em busca da verdade, mas da construção simbólica de um Eu que falhou. O tom irônico de Brás Cubas encobre uma profunda tensão entre ideal e impotência. O morto que narra é, ao mesmo tempo, o sintoma da impossibilidade de significar plenamente a vida.

O “homem do subsolo” dostoievskiano, analisado por Freud e depois por Otto Rank, parece encontrar eco no universo machadiano. Personagens como Rubião (“Quincas Borba”, 1891) ou o próprio Brás Cubas vivem num estado constante de clivagem: entre o que sentem e o que podem nomear, entre o que desejam e o que lhes é permitido. A racionalidade irônica de Machado, muitas vezes vista como ceticismo filosófico, pode ser compreendida também como um mecanismo de defesa; o humor, como disse Freud em “O Humor” (1927), é uma das formas mais elaboradas de sublimação do sofrimento psíquico.

Foto: Reprodução/Internet

O olhar psicanalítico nos permite perceber que Machado de Assis não apenas descreveu sintomas da sociedade de seu tempo – a hipocrisia moral, o narcisismo, o patriarcalismo -, mas dramatizou a formação do sujeito na encruzilhada entre desejo e repressão. Suas obras são montagens de cena em que o inconsciente se deixa entrever pelos lapsos da linguagem, pela escolha das palavras, pelo gesto aparentemente insignificante.

Não por acaso, Jacques-Alain Miller, ao tratar da literatura como campo de manifestação do inconsciente, afirmou: “A ficção é a verdade sobre o desejo”. Os romances de Machado de Assis, nesse sentido, operam como verdadeiras análises literárias de seus personagens, e, por extensão, de seus leitores. Ao nos convidar a habitar os desvãos da alma humana, Machado nos faz reencontrar, na literatura, os rastros do inconsciente: aquilo que escapa, insiste, repete e nos define.

Assim, uma leitura filosófico-psicanalítica de sua obra não busca resolver enigmas narrativos (como o da possível traição de Capitu), mas entender que o enigma é constitutivo do sujeito moderno. Machado, como Freud, entendeu que somos atravessados por forças que nos excedem. E foi na literatura, seu divã silencioso, que ele deu forma estética a esses abismos interiores.

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