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A anatomia da desigualdade brasileira sob o olhar de José de Souza Martins

Redação Culturize-se*

O Brasil, na avaliação do sociólogo José de Souza Martins, se especializou historicamente na produção de uma classe trabalhadora permanentemente fragilizada. Essa afirmação, longe de ser mero diagnóstico isolado, sintetiza décadas de reflexão sobre os mecanismos estruturais que perpetuam a desigualdade no país. Martins, cuja trajetória intelectual é marcada por uma escuta atenta dos silêncios sociais e das vozes invisibilizadas, será homenageado na 2ª edição do Prêmio Jabuti Acadêmico, em agosto, como Personalidade Acadêmica do ano.

Em sua leitura de longa duração da sociedade brasileira, Martins propõe um argumento central: a modernidade nacional nasceu sob o signo da exclusão. Mais do que resistir ao tempo, a lógica escravista sobreviveu às formalidades da abolição e se transfigurou nos modos contemporâneos de precarização, silenciamento e controle da população trabalhadora. “Aqui ainda se quer uma classe trabalhadora que seja dócil, que não reclame”, afirma, sugerindo que o pacto fundacional da ordem social brasileira ainda repousa sobre a domesticação do conflito e a negação do dissenso.

Não por acaso, os movimentos sociais que se insurgem contra essa ordem têm sido, ao longo da história, alvo de repressão e criminalização. A esquerda – entendida não como unidade ideológica, mas como um campo plural de resistência – é, segundo Martins, uma instância indispensável da modernidade, porque vocaliza o protesto, tensiona a ordem e, assim, possibilita o próprio funcionamento da sociedade. O paradoxo, portanto, está em como a democracia brasileira lida com o dissenso: ao invés de integrá-lo como expressão legítima da cidadania, procura neutralizá-lo.

A longa experiência do sociólogo na luta contra formas contemporâneas de escravidão, inclusive como representante das Américas na ONU, reforça sua percepção de que o Brasil não rompeu com sua matriz colonial. A persistência de práticas análogas à escravidão, hoje documentadas em diferentes setores da economia, expressa a continuidade de uma lógica que trata certos corpos como descartáveis. O “escravo-coisa”, como o define Martins, segue sendo um pilar oculto do capitalismo periférico.

Essa lógica da desumanização, para o autor, é um traço constitutivo do ethos nacional. “O Brasil é um país que foi criado em cima do pressuposto de que uma parte do gênero humano não é humano”, observa. A violência estrutural, naturalizada no cotidiano, se manifesta de forma crua em fenômenos como o linchamento – tema que ele investigou em profundidade – e nas reações populares que, longe de desafiar a ordem, frequentemente a reproduzem.

Foto: Jornal da USP

Martins argumenta que a passividade social é outro grande entrave para o avanço democrático no país. Acomodados em um “conforto descabido”, muitos preferem delegar a solução dos problemas a lideranças políticas, instituições religiosas ou promessas miraculosas. Para ele, o combate à desigualdade exige mobilização ativa, consciência crítica e disposição para desnaturalizar a realidade. “Não vai cair do céu”, alerta.

Crítico do uso político da fé e da manipulação da religiosidade popular, o sociólogo vê nesse campo mais uma arena de disputa simbólica. “Vendemos como heróis pessoas que deveriam estar na cadeia”, afirma, denunciando os falsos messianismos que se impõem sobre a população desinformada.

Martins também cobra responsabilização pelos erros cometidos durante a pandemia de covid-19. A ausência de julgamento sobre a condução da crise sanitária e o atraso na vacinação, para ele, revelam o esvaziamento da noção de justiça em uma sociedade acostumada à impunidade seletiva.

A trajetória de José de Souza Martins, marcada pela interlocução com nomes como Florestan Fernandes e por uma vasta produção bibliográfica (41 livros publicados e dezenas de capítulos em obras nacionais e internacionais) é, por si só, um testemunho da relevância do pensamento sociológico como ferramenta de interpretação crítica do Brasil. Entre seus trabalhos mais recentes, destacam-se “Capitalismo e Escravidão na Sociedade Pós-escravista” (2024) e “Sociologia do Desconhecimento” (2021), que reafirmam seu compromisso com a denúncia das desigualdades e com a busca de alternativas emancipadoras.

Em um país onde os conflitos sociais são frequentemente convertidos em ruído ou invisibilidade, o pensamento de Martins resiste como gesto de escuta, memória e lucidez. Seu reconhecimento pelo Prêmio Jabuti Acadêmico é não apenas merecido, mas necessário, em um tempo em que pensar criticamente é, cada vez mais, um ato de resistência.

*Com informações da Agência Brasil

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