Redação Culturize-se
A masculinidade do século XXI está em disputa. De um lado, os avanços nos debates sobre gênero e equidade, impulsionados por conquistas feministas e pelo amadurecimento social. Do outro, o avanço de discursos misóginos, principalmente entre adolescentes do sexo masculino, alimentados por redes sociais e algoritmos que favorecem conteúdos extremistas. O aparente paradoxo tem sido tema de reflexão entre psicanalistas, pesquisadores e escritores que buscam entender por que, em plena era da informação, meninos voltam a reproduzir ideias ultrapassadas sobre o papel das mulheres e o que significa “ser homem”.

Essa tensão atravessa o livro “Coisa de menino? Uma conversa sobre masculinidade, sexualidade, misoginia e paternidade”, escrito por Maria Homem e o saudoso Contardo Calligaris. Na obra, os psicanalistas resgatam a complexidade do masculino a partir de experiências clínicas, referências literárias e culturais, discutindo temas como desejo, heroísmo, paternidade e a projeção idealizada que muitos homens fazem de si. Eles sustentam que parte do machismo estrutural vem da dificuldade de lidar com a vulnerabilidade: “O homem nunca vai dar a chance para a mulher descobrir que ele é um pouco distante da figura idealizada”, escreve Calligaris.
A força desse modelo idealizado de masculinidade, que cobra heroísmo, autossuficiência e controle, colide com uma realidade em que os meninos são bombardeados por influências digitais radicais. A escritora e pesquisadora Laura Bates chama atenção para esse fenômeno preocupante: jovens — antes vistos como mais abertos ao progresso social — estão reproduzindo com mais frequência discursos misóginos. Segundo ela, o TikTok, por exemplo, começa a recomendar vídeos machistas a um perfil de adolescente em apenas 30 minutos de uso.
Para Bates, a radicalização de meninos nas redes sociais é o que há de mais alarmante no cenário contemporâneo. Seu livro “A Nova Era do Sexismo” discute como a inteligência artificial pode amplificar esse movimento, criando bolhas onde discursos de ódio são não só normalizados, mas exaltados. “Estamos diante de uma geração que pode arrastar meninas de volta à Idade das Trevas”, adverte.

Diante desse contexto, a pergunta que surge é: como estamos educando os meninos? A resposta, ainda em construção, aponta para a urgência de repensar os modelos de masculinidade e intervir desde cedo na formação afetiva, emocional e ética dos garotos. O desafio está em oferecer referências que não demonizem o feminino nem perpetuem o poder pelo medo, mas que cultivem empatia, escuta e a aceitação da fragilidade como parte da experiência humana.
A travessia para uma masculinidade menos violenta e mais consciente exige não só novos discursos, mas também novas práticas – na família, na escola, na cultura e nas redes. Afinal, o futuro não pode ser construído por jovens presos a ideias que pertencem ao passado.