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A fé em disputa no Brasil do século XXI

Redação Culturize-se

O Brasil atravessa uma das mais profundas transformações culturais de sua história recente: a transição religiosa. Se por séculos a identidade brasileira foi indissociável do catolicismo – um elo que remonta à colonização portuguesa e à Cruz de Malta fincada no litoral pelos navegadores de Cabral -, hoje o cenário é bem mais complexo, plural e fluido. Os dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE, comprovam com números o que os olhos atentos já vinham percebendo há décadas: o país está deixando de ser hegemonicamente católico para se tornar religiosamente fragmentado.

A queda do catolicismo é tão expressiva quanto simbólica. De 65,1% em 2010 para 56,7% em 2022, a perda não é apenas estatística: ela representa o declínio de um modelo de religiosidade baseado na tradição, na hierarquia e na estabilidade. Ao mesmo tempo, os evangélicos – especialmente os pentecostais e neopentecostais – crescem de maneira contínua, saltando de 21,6% para 26,9% no mesmo período. Mais que números, esses dados revelam uma mudança de ritmo espiritual: uma fé mais imediata, emocional, comunitária, e, em muitos casos, politizada.

Esse ponto, aliás, merece destaque. Parte do crescimento evangélico nas últimas décadas foi impulsionada por uma estratégia agressiva de expansão: abertura de templos, evangelização midiática, ações sociais em comunidades carentes e a promessa de prosperidade em troca de fé e obediência. O resultado foi uma conversão em massa, especialmente entre as camadas populares e jovens, como indica o dado de que 31,6% dos evangélicos têm entre 10 e 14 anos.

Fotos: Reprodução/Internet

Mas os dados de 2022 também sugerem algo novo: a velocidade dessa transição desacelerou. O ritmo de queda dos católicos diminuiu, e o crescimento evangélico perdeu fôlego. O que aconteceu?

Uma possível explicação está na politização do espaço religioso, especialmente no campo evangélico. A associação explícita de setores evangélicos com a extrema-direita, a defesa de pautas ultraconservadoras, o apoio a lideranças políticas controversas e os discursos de ódio contra minorias têm causado um efeito reverso: o afastamento dos fiéis mais moderados. Para muitos brasileiros, religião continua sendo sinônimo de espiritualidade, não de palanque eleitoral.

Além disso, escândalos envolvendo líderes religiosos – de corrupção a abusos sexuais – abalaram a credibilidade de igrejas que antes pareciam inabaláveis. É nesse vácuo de confiança que emergem os 9,3% de brasileiros que se declaram sem religião. Embora não formem um grupo homogêneo, sua presença crescente revela um cansaço com instituições religiosas e uma busca por formas alternativas de espiritualidade ou, simplesmente, por silêncio diante do sagrado.

Há também sinais de resistência e reinvenção no próprio catolicismo. Apesar da perda contínua de fiéis, a Igreja Católica se vale de sua tradição centenária, capilaridade territorial e capacidade de renovação pastoral para manter influência. As chamadas “células vivas” (movimentos jovens, missões urbanas, presença em periferias) mostram que a Igreja está aprendendo a dialogar com um novo Brasil, mesmo que lentamente. E os dados indicam que sua base ainda é forte entre os idosos e nas regiões historicamente católicas, como o Nordeste.

Por outro lado, o aumento das religiões afro-brasileiras e das tradições indígenas, embora em menor escala, é um dado significativo. Representa a afirmação de identidades historicamente marginalizadas e a resistência simbólica de culturas perseguidas por séculos. O avanço de umbandistas, candomblecistas e praticantes de rituais indígenas revela que a diversidade religiosa no Brasil não é só cristã – é, sobretudo, plural, ancestral e mestiça.

A pergunta que fica é: para onde caminha o país em matéria de fé?

Se as tendências atuais se mantiverem, como projetam alguns estudos, os evangélicos poderão ultrapassar os católicos até 2049. Mas será essa ultrapassagem uma vitória numérica ou uma crise espiritual? O dado bruto não explica tudo. A fé no Brasil não é um gráfico de barras; é um terreno em disputa entre tradição, renovação, oportunismo político e desejo de transcendência.

O Brasil deixa de ser um país com uma religião para se tornar uma nação de muitas crenças – e também de dúvidas. Nesse novo cenário, será preciso mais que fé para construir pontes: será necessário escuta, diálogo e compromisso com a convivência democrática entre as diferentes formas de acreditar – ou de não acreditar. E isso, convenhamos, é um desafio bem mais profundo do que qualquer censo pode medir.

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