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Entre hits e hesitações: “American Heart” expõe as virtudes e limites de Benson Boone

Redação Culturize-se

O segundo álbum costuma ser o momento mais desafiador da carreira de um novo artista. É o instante em que a fama inicial deixa de ser um ponto de chegada e passa a ser uma cobrança constante. Benson Boone, revelação global com “Beautiful Things” e dono de uma voz que transita com leveza entre o dramático e o pop açucarado, chega a esse divisor de águas com “American Heart”. O disco surge carregado de expectativas — e entrega um trabalho dividido entre acertos comerciais e uma busca ainda inacabada por identidade artística.

Boone, hoje com 22 anos, não é mais apenas o garoto prodígio que despontou no TikTok ou o vocalista carismático que empolgou o público no Lollapalooza e no Coachella, com direito a participação histórica de Brian May, do Queen. Ele é, agora, um nome consolidado no pop internacional. Suas passagens pelo “The Tonight Show” e pelo Grammy, as apresentações arrebatadoras no “Saturday Night Live” e a iminente turnê esgotada em arenas mostram um artista plenamente inserido na engrenagem do mainstream.

Mas se os números impressionam — são bilhões de streams acumulados e prêmios relevantes no currículo —, “American Heart” expõe o embate que Boone ainda trava consigo mesmo: ser um fenômeno de rádio ou um artista capaz de emocionar além das métricas.

Na superfície, o álbum funciona bem. As referências são claras: Boone aponta Bruce Springsteen como influência para a narrativa da faixa-título, com sua história confessional sobre um acidente de carro quase fatal. A homenagem é honesta, mas a sonoridade, na prática, se aproxima mais do pop reluzente dos Killers ou mesmo das texturas grandiosas da Electric Light Orchestra, especialmente em “Mr. Electric Blue”. Esse saudosismo oitentista também se manifesta em “Mystical Magical”, que bebe diretamente da fonte de “Physical”, de Olivia Newton-John.

Com dez faixas compactas que somam pouco mais de 30 minutos, o álbum busca soar objetivo, coeso, e até certo ponto consegue. “Sorry I’m Here for Someone Else”, por exemplo, é um pop eficaz, sustentado por loops de bateria e melodia grudenta. Já “Man in Me” aposta nas habilidades vocais de Boone, que transita com suavidade por registros agudos e limpos, mostrando domínio técnico que poucos da sua geração possuem.

No entanto, “American Heart” não escapa de um problema recorrente em grandes produções do pop contemporâneo: a embalagem é impecável, mas o conteúdo nem sempre acompanha. O disco é produzido com um esmero quase clínico, sem frestas, sem arestas. Tudo soa perfeito — e talvez seja justamente esse o problema. A polidez excessiva tira da música aquilo que Boone mais tenta comunicar: vulnerabilidade.

Em momentos como “Reminds Me of You”, percebe-se essa tensão entre a intenção e a realização. O arranjo começa como um soul inofensivo e só ganha alguma autenticidade quando explode em teclados distorcidos, emulando a estética dramática de artistas como Olivia Rodrigo. Ainda assim, há sempre a sensação de que Boone segura demais as rédeas, como se temesse qualquer passo fora da linha.

Foto: Divulgação

Essa hesitação, por sua vez, reflete um paradoxo curioso. Ao mesmo tempo em que Boone tenta se afirmar como cantor-compositor sério, entrega um trabalho que soa, por vezes, mais preocupado com o espetáculo do que com a emoção genuína. Sua performance vocal é irretocável, mas a teatralidade constante esvazia parte da conexão. É como assistir a um final catártico de série adolescente: bonito, bem realizado, mas efêmero.

Isso não significa que “American Heart” seja um fracasso. Ao contrário: o disco funciona como entretenimento leve, fácil de ouvir, bem planejado para festivais e arenas lotadas. Mas justamente por funcionar tão bem nesse nível superficial é que deixa um certo gosto agridoce em quem procura mais do que isso.

O momento que Boone vive é, de certa forma, uma encruzilhada. Ele já demonstrou talento suficiente para ir além da superfície. Tem carisma, técnica, referências interessantes e, mais importante, uma base sólida de fãs. Falta agora transformar esse pacote bem-feito em algo verdadeiramente pessoal, arriscado, imperfeito — mas memorável. Aquela virada que transforma um astro pop em artista relevante.

O sucesso comercial, ao que tudo indica, está garantido. Mas será preciso mais do que mortais para trás no palco e duetos com lendas do rock para que Benson Boone consiga saltar para o próximo nível. E talvez o caminho não passe por mais estética — mas por coragem artística.

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