Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Zumbis, iPhones e Brexit: o retorno de Danny Boyle ao mundo de "O Extermínio"

Redação Culturize-se

Quando Danny Boyle lançou “Extermínio” em 2002, talvez nem ele soubesse que estava redefinindo o gênero de filmes de zumbis para o século 21. Filmado antes, mas lançado logo após os atentados de 11 de setembro, o longa se transformou involuntariamente em um espelho do medo e da fragilidade que assombravam o início do novo milênio. Ruas vazias, cidades em ruínas e o espectro da desconfiança pairando sobre os sobreviventes. Mais do que um filme de terror, era um comentário sombrio sobre o colapso social.

Agora, passadas mais de duas décadas, Boyle retorna a esse universo distópico com “Extermínio: A Evolução”, primeiro capítulo de uma nova trilogia que promete não apenas revisitar aquele mundo devastado, mas também atualizá-lo para refletir as ansiedades contemporâneas: pandemias, colapsos institucionais, isolamento e a permanente sensação de que o apocalipse já não é uma hipótese remota, mas um processo em andamento.

É quase irônico que Boyle, conhecido por obras como “Trainspotting” (1996) e “Quem Quer Ser um Milionário?” (2008), tenha influenciado de forma tão decisiva o cinema de horror. Mas talvez essa não seja uma coincidência. Desde “Cova Rasa” (1994), seu primeiro filme, o cineasta demonstrava uma obsessão com os limites morais das pessoas em situações-limite. Em “Extermínio”, o apocalipse zumbi foi apenas o cenário para discutir o que sobra da humanidade quando tudo o que conhecemos desaparece.

Boyle não retornava ao gênero desde “Sunshine – Alerta Solar”(2007), seu thriller de ficção científica também escrito por Alex Garland. Agora, com “Extermínio: A Evolução”, ele e Garland retomam a parceria e mostram que continuam dispostos a arriscar: 80% do novo filme foi rodado com iPhones, numa estética crua que remete mais a documentários caseiros do que ao padrão visual das grandes produções de Hollywood. Para Boyle, a escolha foi estética, mas também política: capturar o horror de forma íntima, como se o espectador estivesse dentro do apocalipse.

Legado em expansão

É impossível falar sobre “Extermínio” sem considerar seu impacto no gênero zumbi. Embora “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), de George A. Romero, tenha estabelecido o arquétipo do zumbi moderno, foi Boyle quem reinventou o monstro para o século 21. Esqueça cadáveres cambaleantes: seus infectados eram rápidos, furiosos e imprevisíveis. Esse conceito foi tão influente que filmes como “Madrugada dos Mortos” (2004) e “Guerra Mundial Z” (2013) seguiram sua estética. Até séries como “The Walking Dead” beberam dessa fonte, mesmo insistindo nos zumbis lentos, mas herdando de Boyle o clima opressivo de colapso inevitável.

Além disso, “Extermínio” pavimentou o caminho para que o horror apocalíptico se tornasse uma metáfora para crises reais: guerras, epidemias, mudanças climáticas. O gênero deixou de ser escapismo para se tornar um retrato angustiante do presente.

Mudança de estúdio

Se “Extermínio” e sua sequência foram distribuídos pela 20th Century Fox (hoje 20th Century Studios, sob o guarda-chuva da Disney), “Extermínio: A Evolução” chega aos cinemas pelas mãos da Sony Pictures. O motivo não foi falta de interesse, mas diferenças criativas e estratégicas. Após a aquisição da Fox pela Disney, projetos de horror adultos e com viés político passaram a não ser prioridade para o estúdio. Boyle e Garland queriam liberdade total para contar sua história, especialmente levando em conta o formato não convencional da trilogia e o uso de tecnologia alternativa como os iPhones.

A Sony, por outro lado, enxergou na trilogia não apenas um produto artístico, mas uma oportunidade estratégica de se posicionar no mercado global com um filme-evento. Em tempos de blockbusters repetitivos e universos compartilhados, “Extermínio: A Evolução” oferecia algo diferente: horror adulto, com relevância cultural e pedigree criativo. Um acerto tanto para a produtora quanto para o público.

Alex Garland começou o processo de desenvolvimento com uma ideia bem diferente: um thriller internacional envolvendo forças especiais chinesas tentando descobrir a origem do vírus. Mas, segundo ele mesmo, esse caminho parecia burocrático demais. Foi então que ele decidiu mergulhar fundo no DNA do projeto original e propôs uma trilogia estruturada em três grandes eixos: luto, maldade e redenção.

O primeiro capítulo, dirigido por Boyle, é sobre perda e sobrevivência familiar. O segundo, “28 Anos Depois“Extermínio”: O Templo dos Ossos“, já está sendo finalizado sob direção de Nia DaCosta (“A Lenda de Candyman“). O terceiro segue em desenvolvimento, mas promete fechar a narrativa com uma abordagem sobre redenção e reconstrução.

Cillian Murphy, protagonista do filme original, retorna à franquia, mas dessa vez como produtor executivo. Sua presença é simbólica: um elo entre o passado revolucionário do gênero e seu futuro ainda em construção.

Ao contrário do que se poderia esperar, Garland não repetiu a fórmula de infectados apenas rápidos e vorazes. “Extermínio: A Evolução” apresenta uma nova evolução do vírus da raiva. Os “Slow-Lows” são criaturas que perderam parte da função motora, rastejando e emitindo sons gorgolejantes como se estivessem afogados no próprio sangue. São imagens grotescas, mais melancólicas do que assustadoras. Já os “Alphas” representam o oposto: seres brutais, geneticamente adaptados à sobrevivência, verdadeiros predadores.

Essa variedade biológica adiciona um elemento inédito ao gênero: zumbis com comportamentos diferenciados de acordo com sua mutação e origem. Não são apenas monstros; são produtos de um mundo em ruínas, metáforas físicas para as diferentes formas de colapso social e pessoal.

A espinha dorsal do novo filme é a relação entre Jamie (Aaron Taylor-Johnson), seu filho Spike (Alfie Williams) e a mãe do garoto, Isla (Jodie Comer). Boyle e Garland criam um drama familiar inserido no caos, mostrando que mesmo quando o mundo termina, os pequenos vínculos humanos ainda podem carregar esperança e tragédia. A jornada deles até o continente para encontrar um suposto curandeiro — interpretado por um Ralph Fiennes sinistro e dúbio — transforma o longa em algo próximo de um western sombrio, com pântanos e vilarejos abandonados substituindo os desertos do gênero clássico.

Garland construiu um roteiro cheio de referências à cultura inglesa: desde trechos do poema Boots, de Rudyard Kipling, até imagens do clássico Henrique V, de Laurence Olivier. É uma Inglaterra pós-Brexit e pós-pandêmica, onde o orgulho nacional se mistura com a desesperança absoluta.

Estética digital e desafio do realismo

O uso extensivo de iPhones não é apenas uma escolha estética. Segundo Anthony Dod Mantle, diretor de fotografia e parceiro de longa data de Boyle, a ideia era dar ao espectador a sensação de estar assistindo a um vídeo pessoal encontrado em algum abrigo ou arquivo perdido. Em muitas cenas, Boyle utilizou até 20 iPhones simultaneamente para capturar perspectivas diferentes da ação, criando uma montagem nervosa e fragmentada.

A técnica remete ao espírito quase punk de “Extermínio”, que já havia sido gravado em câmeras digitais de baixo orçamento, conferindo ao filme um aspecto documental. Agora, “A Evolução” leva essa estética ao limite, misturando beleza poética e brutalidade extrema.

Mais do que apenas um filme de zumbi, “Extermínio: A Evolução” é um comentário sobre a própria decadência da sociedade ocidental. Em um mundo onde tecnologia falhou, governos ruíram e a confiança entre indivíduos desapareceu, resta apenas a luta pela próxima geração. Não é coincidência que a trama gire em torno de uma criança: Spike representa a continuidade possível ou a confirmação de que tudo está perdido.

Para Boyle, a questão fundamental não é sobreviver, mas por quê sobreviver. É uma reflexão amarga sobre legado, sobre o que deixamos para trás e se há algo ainda digno de ser protegido.

Os próximos capítulos

Com o segundo filme já praticamente pronto e o terceiro em estágio inicial, a trilogia promete se tornar um marco definitivo na filmografia de Boyle e Garland. Mais do que isso, “Extermínio: A Evolução” chega em um momento de saturação dos blockbusters previsíveis, oferecendo ao público algo raro: entretenimento com propósito.

Se “Extermínio” reinventou o gênero, “Extermínio: A Evolução” quer redefini-lo novamente — dessa vez, para uma era que já não sabe se o apocalipse ainda é ficção.

Isso pode te interessar

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Questões Políticas

Caiado é prenúncio da direita que flerta com o pós-bolsonarismo

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.