Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

"O Estúdio" e o tesão pelos bastidores do cinema

Reinaldo Glioche

Muito menos sagaz do que acredita ser, “The Studio”, série de comédia criada por Seth Rogen e Evan Goldberg para o AppleTV+, foi alçada ao posto de “melhor comédia da primeira metade do ano”. A produção acompanha a rotina de Matt Remick (Rogen), um cinéfilo que calha de liderar um estúdio de cinema e precisa lidar com pressões diversas, desde como promover um filme a equalizar pressões comerciais com ambição artística.

A série tem como principal atrativo um sem número de participações especiais, de Martin Scorsese, Ron Howard e Charlize Theron a Sarah Polley, Zoe Kravitz, Zac Efron e Anthony Mackie, passando por Bryan Cranston, Greta Lee e Steve Buscemi, entre outros. Em 10 episódios, a série se resolve como um grande easter egg para cinéfilos e tem piadas realmente inspiradas, mas seu apelo reduz sensivelmente para quem não é apaixonado -ou curioso – pelo cotidiano do movie business.

Rogen e Goldberg são responsáveis por algumas das comédias mais divertidas do início do milênio, como “A Entrevista” (2014), “Segurando as Pontas” (2008) e “Superbad” (2007) e o estilo histriônico dessas produções permanece aqui. Há piadas que beiram a escatologia e outras incrivelmente sofisticadas. Maconha, insegurança e camaradagem são outras características vívidas de suas obras que ecoam em “O Estúdio”.

A produção da Apple brinca com a Netflix, com a arrogância de estrelas de cinema, com a percepção de que o trabalhar com cinema é menos importante do que outras profissões, com a ideia de perseguir “o próximo Barbie” e outras tantas banalidades que tornam Hollywood tão cativante. Mas há pouco a se tatear além das inside jokes. “O Estúdio” não chega a alimentar uma crítica ou fazer um comentário pertinente ao que ridiculariza episódio após episódio. Tampouco tenta cativar um público mais amplo, contentando-se em pregar para convertidos. Nada de errado com isso, assim como não há problema algum em existir apenas para divertir, entretanto, falta honestidade à produção em relação a tudo isso.

“O Estúdio” se leva a sério demais – o que talvez merecesse o escárnio da própria produção em um episódio – e tenta convencer seu espectador que é inteligente demais, sagaz demais, quando na realidade é extremamente simplório e repetitivo.

A série sequer é inovadora em sua proposta. Entre 2004 e 2011, a HBO exibiu a série “Entourage”, sobre um ator em ascensão em Hollywood e seu grupo de amigos. Havia também participações especiais em profusão, embora em menor escala e substância do que “O Estúdio”, mas o texto da série era infinitamente superior. Além de cativante como diversão ligeira, “Entourage” também agradava por seu humor inteligente, que não alienava os incautos da cinefilia, e pelos inteligentes comentários que fazia sobre Hollywood e o american dream. A produção teve, ainda, a felicidade de antecipar o boom de franquias de super-heróis.

O que nos leva a outra produção recente da HBO, a série “A Franquia”, exibida em 2024 e cancelada após uma temporada. Criada pelo cineasta Sam Mendes (“Beleza Americana”, “Skyfall”), o seriado satirizava com gosto esse tipo de produção em voga em Hollywood, os filmes de super-herois e seus universos compartilhados. A inspiração era claramente a Marvel e a proposta, embora bem parecida com a de “O Estúdio”, era mais inclusiva desde o tipo de humor ao público-alvo.

Cinema pelo cinema

Além das séries de TV, o próprio cinema já mergulhou na metalinguagem de falar de si. Neste século, inclusive, alguns vencedores do Oscar o fizeram com graciosidade (“O Artista”), engenho (“Argo”) e assertividade dramática (“Birdman”). O tesão pelos bastidores do cinema é algo quase antropológico e já rendeu excelentes filmes, alguns divertidos e outros poucos inspirados.

“O Estúdio”, para o bem e para o mal, talvez encapsule tudo isso.

Isso pode te interessar

Play

Quilty quer redefinir como filmes são escolhidos e financiados

Arquitetura & Urbanismo

Primeira Bienal brasileira aposta em identidade e contexto para repensar o espaço construído

Reportagens

Comemorações dos 50 anos da Funarte fortalecem a Cultura do Brasil

Cinema

Aos 100 anos, Odeon representa resistência do cinema de rua no Rio

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.