Redação Culturize-se
Mais de uma década após psicólogos começarem a enfrentar preocupações sobre o rigor de suas pesquisas, novas evidências sugerem que a área está melhorando. Uma análise recente de 240.355 artigos de psicologia revelou que resultados estatísticos “frágeis” — um possível sinal de práticas científicas questionáveis ou amostras pequenas — diminuíram significativamente entre 2004 e 2024.
“É um trabalho minucioso e impressionante”, observa Mark Rubin, psicólogo da Universidade de Durham que não participou do estudo, publicado em abril na revista Advances in Methods and Practices in Psychological Science. Rubin destaca que os resultados coincidem com outras tendências positivas, como o aumento no tamanho das amostras relatadas.
A chamada “crise de replicação” da psicologia ganhou destaque no início da década de 2010, quando críticos denunciaram práticas de pesquisa pouco confiáveis, uso inadequado de estatísticas e a publicação de descobertas chamativas, porém questionáveis. Como resposta, muitos pesquisadores passaram a adotar reformas, como o registro prévio de desenhos experimentais e a disponibilização pública dos dados e códigos de análise.
Para medir o progresso, o psicólogo Paul Bogdan, da Universidade Duke, analisou valores de p, que indicam a significância estatística. Em muitas áreas, resultados com p abaixo de 0,05 são considerados significativos. No entanto, uma quantidade elevada de artigos com p próximos a esse limite pode ser um alerta de que os autores manipularam análises para conseguir resultados publicáveis.
Bogdan desenvolveu um software para vasculhar os valores de p de mais de 240 mil artigos de psicologia ao longo de 20 anos. Ele focou na faixa “frágil” — valores entre 0,01 e 0,05 — porque, por acaso, cerca de 26% dos resultados significativos deveriam se situar ali. Percentuais mais altos sugerem possível viés. Em 2004, 32% dos valores de p estavam nessa faixa; em 2024, o número caiu para cerca de 26%, um sinal promissor de boas práticas.

Os tamanhos das amostras, outro fator essencial para a confiabilidade dos estudos, também aumentaram. Enquanto muitos estudos em psicologia tinham menos de 100 participantes em 2004, áreas como a psicologia social agora chegam a médias próximas de 250 participantes, impulsionadas pelo crescimento das plataformas online. Já a psicologia clínica, que depende mais de recrutamento presencial, apresentou avanços mais modestos.
Bogdan atribui essas mudanças positivas a uma transformação cultural mais ampla na psicologia, em que pesquisas mais sólidas são cada vez mais reconhecidas por pares, periódicos e citações. Ainda assim, especialistas pedem cautela. Parte dessa melhoria pode estar mais relacionada à facilidade do recrutamento online do que a uma mudança profunda. Mesmo assim, muitos pesquisadores consideram essa tendência um avanço real.