Redação Culturize-se
Quando a Apple apresentou o iPhone em 2007, ela não inventou a tela sensível ao toque — ela a aperfeiçoou. Aquele display multitoque de 3,5 polegadas, com resolução revolucionária de 320 por 480 pixels, marcou uma mudança profunda na forma como as pessoas interagiam com a tecnologia. Gestos como pinçar, deslizar e ampliar — hoje corriqueiros — nasceram naquele momento. Quase duas décadas depois, os smartphones da Apple continuam no centro da vida moderna, com mais de seis bilhões de smartphones em circulação no mundo, pelo menos um bilhão deles iPhones.
Mas, embora o hardware e o modelo de interação tenham evoluído de forma incremental, a Apple enfrenta um desafio crescente: como manter esse universo atraente, especialmente em um momento em que a inteligência artificial transforma a forma como usamos dispositivos. A apresentação do iOS 26 na WWDC 2025, em Cupertino, pretendia sinalizar o próximo estágio dessa evolução — mas o resultado foi ambíguo, revelando tanto as forças quanto as dificuldades da Apple em definir um novo caminho ousado.
À primeira vista, o lançamento do iOS 26 parecia um salto confiante rumo ao futuro. Esteticamente, a Apple apresentou sua reformulação visual mais significativa desde o iOS 7, com o conceito chamado Liquid Glass. Inspirado no Apple Vision Pro e em suas interfaces de computação espacial, o Liquid Glass confere a aplicativos, barras de tarefas, widgets e ícones um aspecto translúcido e refratado, simulando a sensação de interagir com painéis de vidro curvados e flutuantes. É um visual impactante e intricado, uma demonstração do imenso poder de processamento do Apple Silicon aplicado não a tornar apps mais rápidos, mas a tornar o software mais bonito.
Mais do que estética, a Apple prometeu uma nova era de conectividade e integração. Por trás disso está o Apple Intelligence, a versão personalizada da Apple para IA — vendida como mais privada, mais integrada e, em última análise, mais útil que as alternativas concorrentes. A visão apresentada era ambiciosa: o Apple Intelligence compreenderia e-mails, mensagens e compromissos para ajudar a concluir tarefas automaticamente, aprendendo hábitos para automatizar ações do dia a dia.
O problema? Essa visão ainda não se concretizou.
Apesar de ter promovido o Apple Intelligence como a grande novidade há mais de um ano, boa parte dos recursos anunciados ainda não foi lançada. Originalmente prometidos para 2024, muitos desses recursos foram adiados para “o próximo ano”. Esse progresso lento contrasta com as iniciativas ousadas da concorrência, como o Google, cujos anúncios recentes incluem sistemas de IA capazes de navegar na web sozinhos ou ajudar cineastas a gerar sequências visuais completas. Ainda que algumas dessas ideias do Google possam ser promessas distantes, a direção é clara: ambiciosa, experimental, transformadora.
Na WWDC 2025, a Apple, em comparação, pareceu presa ao incrementalismo. Além do novo visual elegante do Liquid Glass, as grandes novidades envolveram janelas redimensionáveis no iPad, pequenas melhorias na busca Spotlight e ajustes em modo escuro e papéis de parede. Algumas novidades, como pacotes de ícones translúcidos ou efeitos 3D para fotos gerados por IA, priorizaram mais o apelo estético do que uma transformação funcional.


Talvez o momento mais revelador da apresentação tenha sido quando os executivos falaram longamente sobre o Liquid Glass — mas mal explicaram por que isso importa. Sim, é bonito, refrata luz de maneira sofisticada e cria profundidade imersiva — mas a serviço de quê? O foco foi na aparência, não na função. Como Steve Jobs costumava argumentar: “Design não é só o que parece ou o que se sente. Design é como funciona.” O risco do Liquid Glass é ser apenas estilo, sem propósito.
O Apple Intelligence também segue fragmentado. Integração com o ChatGPT, novas ferramentas de escrita e modelos de linguagem locais estão a caminho, mas falta aquela narrativa coesa e inspiradora que a Apple costumava dominar. Em outros tempos, a empresa se colocava como a visionária da computação pessoal — a empresa do “Think Different”, criadora das “bicicletas para a mente”. Em 2025, essa confiança pareceu ausente. Em vez de sonhos transformadores, o foco recaiu sobre melhorias em tarefas digitais mundanas: organizar agendas, responder grupos de WhatsApp, customizar telas de bloqueio.
Ainda assim, é preciso reconhecer a força da Apple. A maioria dos usuários permanece fiel ao ecossistema, e nem Google nem OpenAI lançaram, até agora, recursos suficientemente poderosos para arrancar milhões de usuários do iPhone. A Apple não precisa vencer todas as disputas em IA para manter sua liderança — mas, se quiser inspirar novamente, precisará oferecer mais do que vidro bonito e widgets novos. Será preciso apresentar uma visão clara e entusiasmante sobre o que vem depois.
Por ora, a Apple parece satisfeita em polir o presente. Resta saber se isso será suficiente para garantir o futuro.