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Elon Musk x Donald Trump: ruptura abala Tesla e mercado de tecnologia

Redação Culturize-se

Antes celebrado como uma figura influente na política republicana e aliado próximo do ex-presidente Donald Trump, Elon Musk agora se vê em uma ruptura surpreendente — e de enormes consequências — com o homem que ajudou a reconquistar a Casa Branca. O rompimento, centrado na polêmica proposta “Um Único e Belo Projeto de Lei” (One Big, Beautiful Bill) de Trump, é mais do que um espetáculo político: pode ter efeitos sérios sobre a Tesla, o setor de veículos elétricos (EVs) e o vasto império corporativo de Musk.

De conselheiro íntimo a pária político

A ruptura foi tão rápida quanto dramática. Meses atrás, o CEO da Tesla e da SpaceX aparecia ao lado de Trump na noite da eleição, fazia declarações públicas de apoio, discursava em comícios e até chefiava o recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE). Menos de cinco meses depois, tornou-se um dos críticos mais ruidosos do projeto de lei.

O ponto de virada veio com a divulgação da proposta fiscal e orçamentária de Trump. Musk a classificou como uma “aberração nojenta” e acusou os legisladores de traição. “Vergonha para quem votou nisso”, postou no X, ameaçando financiar campanhas contra parlamentares republicanos que apoiaram a medida. Na quarta-feira, foi além: convocou os americanos a pressionar seus representantes para “enterrar o projeto”, alertando que ele adicionaria uma dívida “esmagadora” de US$ 2,5 trilhões ao déficit.

A Casa Branca reagiu com uma nota intitulada “desmentindo mitos”, negando as alegações de Musk e reafirmando a importância do projeto. Trump, inicialmente em silêncio, finalmente comentou a crise: disse não saber se ainda mantinha “um bom relacionamento” com o empresário. Musk, por sua vez, afirmou ter sido essencial para a vitória de Trump em 2024: “Sem mim, Trump teria perdido a eleição.”

A crise política já afeta os mercados financeiros e as negociações no Congresso. A Tesla perdeu mais de US$ 150 bilhões em valor de mercado em um único dia após as declarações de Musk, que por sua vez viu sua fortuna cair quase US$ 20 bilhões. Analistas atribuem parte dessa queda ao temor de que a Tesla esteja agora em desvantagem em Washington, especialmente diante de um projeto que pode eliminar os créditos fiscais para veículos elétricos — um incentivo crucial para as vendas da empresa.

Embora Musk tenha declarado publicamente ser contra tais subsídios, o momento é crítico. Uma pesquisa recente da AAA mostrou que apenas 16% dos americanos pretendem adquirir um carro elétrico — o menor índice desde 2019. Sem créditos fiscais e com o interesse público em queda, montadoras podem voltar a priorizar híbridos e carros a combustão.

Um jogo político de alto risco

A ascensão e queda de Musk dentro do Partido Republicano refletem não só sua imprevisibilidade, mas também a volatilidade do cenário político atual. Sua participação na criação da iniciativa DOGE para cortar gastos públicos parecia uma tentativa de aplicar a eficiência do Vale do Silício ao governo conservador. Mas sua visão tecnocrática e austera colidiu com as prioridades populistas de Trump — como aumento de gastos militares e cortes de impostos.

Um dos impasses mais simbólicos foi a tentativa frustrada de Musk de fazer o Starlink operar o sistema de controle aéreo da FAA. O plano foi rejeitado por questões técnicas e conflitos de interesse — um golpe embaraçoso para alguém que antes influenciava diretamente decisões no Salão Oval.

Alguns republicanos reagiram duramente. O presidente da Câmara, Mike Johnson, que conduziu a votação do projeto, disse que Musk está “gravemente equivocado” e revelou uma ligação telefônica de 20 minutos em que discutiram os impactos da proposta sobre os créditos para EVs. “Lamento muito”, declarou. “Lamento profundamente que ele tenha cometido esse erro.”

Enquanto isso, democratas — críticos de longa data de Musk — agora usam suas declarações como munição. “Até Elon Musk, que fez parte de todo o processo e era um dos amigos de Trump, disse que o projeto é ruim”, afirmou o líder democrata no Senado, Chuck Schumer.

As consequências políticas de Musk ultrapassam a Tesla. Investidores haviam precificado sua proximidade com Washington nas avaliações da SpaceX, xAI, Neuralink e Boring Company. Em dezembro, a SpaceX foi avaliada em US$ 350 bilhões — um salto de US$ 140 bilhões em seis meses — impulsionado em parte pela expectativa de contratos governamentais e regulação favorável.

Do amor ao ódio | Foto: Reprodução/Instagram

Agora, essa premissa está sendo revista. “A deterioração da amizade e agora o ‘grande conflito’ entre Musk e Trump é estarrecedora e chocou o mercado”, disse Dan Ives, da Wedbush Securities. Investidores precisam reavaliar o valor do império Musk sem a proteção política que pareciam considerar garantida.

O que vem a seguir para Musk – e para os EUA?

O rompimento entre Musk e Trump é um alerta sobre os riscos do envolvimento político para líderes empresariais. Mostra como alianças podem mudar rapidamente — e como isso pode ser devastador para os negócios. Revela também a divisão crescente dentro do Partido Republicano: entre os fiscalistas como Musk e os gastadores populistas como Trump.

Para a Tesla, o cenário é preocupante. Perder influência em Washington no exato momento em que cresce o ceticismo sobre EVs pode limitar severamente seu potencial de crescimento. Para Musk, antes visto como visionário político e tecnológico, o desafio agora é provar que suas empresas podem prosperar sem acesso privilegiado ao poder.

No fim das contas, essa disputa vai além de um conflito entre bilionários. Trata-se do futuro da inovação americana, da estabilidade fiscal do país e da relação cada vez mais intrincada entre os titãs da tecnologia e o poder político. Com o projeto de Trump avançando a todo vapor — e o prazo de 4 de julho se aproximando —, a batalha de Musk pode estar apenas começando.

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