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No poderoso Lotus, Little Simz confronta feridas e encontra renovação

Redação Culturize-se

Com o lançamento de seu sexto álbum de estúdio, “Lotus”, Little Simz enfrenta o momento mais decisivo de sua carreira. Após uma dolorosa ruptura com o colaborador de longa data Inflo — contra quem move um processo de £1,7 milhão por empréstimos não pagos — Simz retorna não apenas com novas músicas, mas com uma obra moldada por traição, introspecção e reinvenção ousada. “Lotus” é ao mesmo tempo um acerto de contas pessoal e um salto criativo, um testemunho da resiliência da artista e de seu compromisso com os limites expansivos do hip-hop.

Já na faixa de abertura, “Thief”, fica claro que Simz está pronta para confrontar os estragos de frente. Em meio a uma paisagem sonora cinematográfica — com guitarras ao estilo “Kill Bill” e um clima de funk noir — ela apresenta um relato feroz de traição: “Eu estava sob o feitiço e agora meu espírito despertou.” A artista deixa para trás a vulnerabilidade contida de “NO THANK YOU” (2022) e avança para algo mais confrontador e experimental. Canções como “Flood” transbordam energia desafiadora, enquanto “Lonely” reflete sobre bloqueio criativo e colaborações rompidas, encontrando clareza através da dor.

“Lotus” não se esquiva da emoção crua, mas também floresce na ousadia sonora. O álbum explora uma ampla paleta musical — das cordas exuberantes e quase Disneyanas de “Hollow” à confiança vibrante de “Lion”, reencontro com Obongjayar. “Young” se destaca pelo tom satírico, com Simz zombando de jovens ricos em um sotaque britânico afetado, sobre uma batida que remete ao The Streets. A irreverência alegre continua em “Enough”, um destaque dançante com groove disco e percussão à la LCD Soundsystem.

Por trás dessa diversidade estilística, há uma base sólida: o insight lírico e a autoconsciência inigualáveis de Little Simz. Seja trocando versos com Wretch 32 em “Blood” ou misturando seu flow às texturas soul de Michael Kiwanuka e Yussef Dayes na faixa-título, ela mantém o controle total da narrativa. Essas colaborações realçam sua voz em vez de competir com ela — um reflexo de sua generosidade artística e senso intuitivo de equilíbrio.

Foto: Divulgação

As faixas finais, “Lonely” e “Blue”, completam o arco emocional do álbum. Aqui, Simz revela suas dúvidas mais profundas com uma honestidade tocante: “Talvez eu faça mais atuação e menos rap / Porque eu já nem sei mais quem devo ser.” Longe de diminuir sua força, essas confissões revelam justamente a complexidade que torna sua arte tão poderosa. A flor de lótus, símbolo de crescimento em águas turvas, torna-se metáfora perfeita para um álbum nascido da turbulência, mas voltado à renovação.

Com “Lotus”, Little Simz prova mais uma vez que é não só uma das vozes mais inovadoras da música contemporânea, mas também uma das mais destemidas. Seu legado já era marcante; agora, parece imparável.

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