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O humor no banco dos réus

Por Reinaldo Glioche

Bastante repercutida nas últimas 48 horas, a condenação do comediante Léo Lins por fazer piadas – ainda que de mau gosto – evidencia não apenas o colapso moral da sociedade brasileira, como sua escalada autoritária. O cerceamento da liberdade de expressão tem se avolumado, com a benção do Supremo Tribunal Federal (STF), que tem reiterado abusos de toda ordem e negligenciado sua principal vocação: salvaguardar a Constituição Brasileira.

O fato dessa estapafúrdia condenação ter se dado no mesmo dia da soltura, ainda que de maneira cautelar, do MC Poze do Rodo, investigado por apologia ao crime, e da condenação em instância administrativa, sem qualquer prova material contundente, do juiz da Lava-Jato no Rio de Janeiro, Marcelo Bretas, enseja uma preocupação muito mais ampla com o estado das coisas no Brasil.

O país, preso a polarizações sem sentido, parece ter perdido o seu rumo. Mais: O STF, mais uma vez usurpando competências, se debruça sobre a regulação das redes sociais, acenando com mais medidas descabidas e ataques institucionalizados às liberdades mais básicas de qualquer democracia plena.

Mas nos atenhemos à questão do humor.

Não é a primeira vez que testemunhamos um descalabro dessa natureza, mas é a primeira vez que ele se dá no contexto narrado acima. O que lhe afere imediatamente novo significado. A ideia de que liberdade de expressão não é liberdade de agressão tem sido difundida incorretamente, possibilitando distorções ao gosto do freguês convalescendo um ímpeto autoritário, maniqueísta assentado sob a égide de um consórcio da hipocrisia à direita e à esquerda da sociedade.

Enquadrar o humor como crime é pressuposto para desqualificar a arte, algo corriqueiramente atribuído pela Esquerda à Direita e, no entanto, o status quo atual faz com que a Esquerda silencie diante de tamanho absurdo como esse cometido contra não apenas Léo Lins, mas contra o humor, contra a manifestação artística como um todo.

É um sintoma da doença que nos aflige. Falta ao debate público mais idoneidade e à sociedade mais disposição de compreender o que precisa fazer para evitar que cheguemos para onde estamos caminhando.

Evocando Millôr Fernandes, “o humor também compreende o mau humor. O mau humor é que não compreende nada”.

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