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Decodificando Reinaldo Azevedo

Redação Culturize-se

A trajetória de Reinaldo Azevedo é um dos fenômenos mais intrigantes do jornalismo político brasileiro. Ex-militante trotskista, colunista ferrenho do antipetismo e, hoje, crítico contundente do bolsonarismo e simpático ao lulismo, sua biografia reflete as convulsões ideológicas que marcaram o país nas últimas décadas. Seu programa “O É da Coisa”, na BandNews FM e TV, virou termômetro dessa transformação: de porta-voz do liberalismo conservador a voz dissonante na grande mídia, Azevedo continua atraindo tanto admiração quanto ódio — com os sinais trocados, é bem verdade. Sua coluna no UOL é das mais lidas no país e ele hoje assenta-se no centro do status quo político-ideológico brasileiro. 

Das trincheiras trotskistas ao antipetismo

Nascido no calor da militância estudantil, Reinaldo Azevedo foi um dos quadros da Libelu (Liberdade e Luta), corrente trotskista da USP nos anos 1970. Formado na tradição marxista, ele integrou a organização O Trabalho, ligada à IV Internacional, antes de migrar para o jornalismo. Seu passado revolucionário, no entanto, não impediu uma guinada radical nos anos 2000. 

Como colunista da Veja por 12 anos, Azevedo tornou-se um dos principais arquitetos do antipetismo na mídia. Cunhou o termo ‘petralha’, escreveu livros como “O País dos Petralhas” (2008) e foi peça-chave na construção do imaginário antipetista. Sua retórica afiada e seu estilo combativo o alçaram ao status de ídolo da direita, ecoando nos salões do agronegócio, do mercado financeiro e da elite paulistana. 

O primeiro sinal de dissidência surgiu em 2017, quando Azevedo rompeu com a Veja após criticar a Lava Jato. O estopim foi o vazamento ilegal de uma conversa sua com Andrea Neves, irmã de Aécio Neves, pelo então juiz Sérgio Moro. Em seu último artigo na revista, ele acusou a operação de “intimidatória” — um posicionamento raro na grande imprensa da época. 

A guinada se aprofundou em 2019, quando, durante um programa na RedeTV!, Azevedo protagonizou um dramático walkout ao vivo, arrancando o microfone e deixando o estúdio em protesto contra a linha editorial da emissora. O gesto marcou simbolicamente seu distanciamento do campo conservador que antes defendia. 

O reencontro com a Esquerda 

Nos últimos anos, Azevedo reposicionou-se como um crítico feroz do bolsonarismo e do que chama de “distopia neoliberal-fascista”. Seu programa na BandNews passou a abrigar entrevistas com figuras como Lula, Guilherme Boulos e José Dirceu — nomes que ele outrora atacou com virulência. 

Em 2023, seu “O É da Coisa” atingiu picos de audiência superiores aos da GloboNews, com a Band estudando até levá-lo para a TV aberta. Seu público, outrora majoritariamente conservador, agora inclui progressistas que veem nele um aliado inesperado. 

Foto: Reprodução/YouTube

Azevedo nega ter “virado à esquerda”, insistindo em um liberalismo “clássico”. Mas suas posições — defesa de políticas sociais, críticas ao ultraliberalismo de Paulo Guedes e apoio ao que foi chamado de “frente ampla antifascista” — soam cada vez mais próximas da Esquerda. 

Reinaldo Azevedo é um paradoxo vivo: um ex-trotskista que virou arauto do antipetismo e, depois, crítico da direita. Sua trajetória espelha as contradições de um país polarizado, onde as identidades políticas são fluidas e as convicções, muitas vezes, negociáveis. 

Se antes era odiado pela esquerda, hoje é execrado pela direita. Seu programa virou um espaço raro de debate plural na mídia corporativa, ainda que inclinado à Esquerda; sua coluna na Folha equilibra-se entre o liberalismo professado e um pragmatismo que flerta com o lulismo. 

Azevedo segue um enigma. Sua transformação pode ser lida como oportunismo ou como evolução – ou involução – intelectual. Mas uma coisa é certa: em um cenário midiático dominado por maniqueísmos, sua capacidade de mudar — e de irritar ambos os lados — faz dele um dos jornalistas mais relevantes do Brasil. 

Como ele mesmo disse em uma entrevista recente: “Talvez o liberalismo seja coisa de país rico”. E no Brasil desigual e violento de 2025, Reinaldo Azevedo parece ter decidido que a Esquerda é a melhor alternativa.

Se isso é um retorno às origens ou apenas mais uma parada em sua jornada ideológica, só o tempo dirá. Mas, por ora, o “Tio Rei” segue furando o asfalto do jornalismo brasileiro — com todas as contradições que isso implica.

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