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Blues, espiritualidade e comunidade estão no centro de "Pecadores"

Redação Culturize-se

“Pecadores”, de Ryan Coogler, é um filme repleto de camadas temáticas ricas — fé, tradições culturais negras, o poder da música e a luta pela autonomia da própria alma. No entanto, em sua essência, o filme é sobre comunidade: como ela se constrói, como é ameaçada e como perdura. Através das narrativas entrelaçadas de Sammie (Miles Caton), os Gêmeos Smokestack (Michael B. Jordan) e a enigmática Annie (Wunmi Mosaku), ‘Pecadores” explora as formas pelas quais os negros americanos historicamente navegaram a opressão, a espiritualidade e o desejo.

Leia também: Verve autoral impregna o pungente “Pecadores”

Fé e Blues: a luta de Sammie por sua alma

O filme começa com Sammie, ensanguentado e ferido, tropeçando dentro de uma igreja — uma casa de fé — em busca de refúgio dos horrores que enfrentou. Seu pai, o Pastor Jedidiah Moore (Saul Williams), não oferece conforto, mas exige testemunho, usando o sofrimento de Sammie como ferramenta para reforçar seu cristianismo rígido e condenatório. Essa cena é entrecortada com flashes de Remmick (Jack O’Connell), o vampiro que aterroriza o clube de música gerido pelos primos de Sammie, Smoke e Stack. Tanto Jedidiah quanto Remmick buscam explorar Sammie — um para proselitismo religioso, o outro por seu dom musical, capaz de “atravessar o véu entre a vida e a morte.”

A música de Sammie é um canal de conexão ancestral, um poder enraizado na tradição do blues. Como Delta Slim (Delroy Lindo) lhe diz: “O blues não nos foi imposto como essa religião. Não, senhor. Nós o trouxemos conosco de casa. É magia o que fazemos. É sagrado e grandioso.” Quando Sammie toca, sua música colapsa o tempo e o espaço, convocando figuras da diáspora africana — passado, presente e futuro — para uma dança transcendente. Essa cena, descrita por Coogler como um “circuito de retroalimentação”, ilustra o poder comunitário da música negra, onde criação e participação são inseparáveis.

Ainda assim, esse dom torna Sammie um alvo. Remmick, um vampiro irlandês, busca usar a música de Sammie para se reconectar com sua própria herança perdida, enquanto Jedidiah teme o blues como uma distração de Deus. Ambos veem Sammie como um meio para um fim, não como uma pessoa. Essa tensão reflete a luta histórica dos negros americanos ao navegar o cristianismo — uma religião imposta durante a escravidão — ao mesmo tempo em que preservam tradições espirituais africanas como o Hoodoo.

Annie, a praticante de Hoodoo do filme, incorpora essa dualidade. Ela não se opõe ao cristianismo, mas opera fora de suas estruturas rígidas, usando seu conhecimento para proteger a comunidade. Quando ela lista água benta como arma contra vampiros, demonstra o sincretismo da espiritualidade negra. Contudo, como observa a acadêmica Yvonne P. Chireau, essa mistura frequentemente encontrou resistência. Alguns críticos, como o rapper cristão Lecrae, acusaram “Pecadores” de ser “propaganda anticristã”, enquanto outros argumentam que o filme mostra o cristianismo e o Hoodoo como forças entrelaçadas de sobrevivência.

No final, a salvação de Sammie não vem apenas da oração, mas de sua guitarra — símbolo do blues — e de seu primo Smoke. A verdadeira fé do filme não está no dogma, mas na comunidade. Como Sammie reflete décadas depois: “Antes do pôr do sol, acho que foi o melhor dia da minha vida.” Essa alegria só foi possível graças às pessoas ao seu redor.

Foto: Divulgação

Um dos elementos mais radicais de “Pecadores” é sua retratação de Annie como protagonista romântica. Seu relacionamento com Smoke é carregado de desejo — sua cena de reencontro, na qual ela sussurra “Seu corpo não me esqueceu”, é um dos momentos mais íntimos do filme. No entanto, de forma surpreendente, muitos espectadores interpretaram Annie como uma figura materna, e não como amante. Essa leitura equivocada revela preconceitos profundos sobre mulheres negras gordas na mídia.

Historicamente, mulheres negras gordas foram relegadas ao arquétipo da “mammy” — cuidadoras assexuadas, jamais vistas como objeto de desejo. A gordura foi racializada e estigmatizada, associada à inferioridade moral e ao excesso. Essa ideologia posiciona mulheres negras gordas fora do campo da desejabilidade, reforçando sua marginalização.

Coogler subverte isso deliberadamente. Annie é filmada com a mesma sensualidade de outros interesses românticos, e sua relação com Smoke é central para a narrativa. Ainda assim, espectadores, condicionados por estereótipos, tiveram dificuldade em aceitá-la como figura romântica. Isso revela o quão enraizados estão esses preconceitos — mesmo quando um filme os desafia, o público tende a recorrer a tropos familiares.

A resistência à desejabilidade de Annie não diz respeito apenas à gordura, mas a quem é permitido ser visto como sexual. O desconforto que alguns sentiram reflete a relutância mais ampla da sociedade em reconhecer mulheres negras gordas como plenamente humanas, capazes de amor e desejo. “Pecadores” inadvertidamente oferece uma visão em que elas são — quer o público esteja preparado para isso ou não.

Cunilíngua, vampiros e o poder da fala direta

“Pecadores” também é um filme sobre comunicação — especificamente, sobre o poder libertador de falar de forma direta. Isso é mais evidente em seu foco recorrente no cunnilingus. Desde o conselho gráfico de Stack para Sammie sobre encontrar o “botão” de uma mulher até a acusação de Mary de que Stack “enfiou a língua na minha xoxota”, o filme trata o sexo oral tanto de forma literal quanto metafórica.

O ato do cunnilingus espelha a alimentação dos vampiros — ambos envolvem bocas sobre carne irrigada de sangue, ambos envolvem consumo. Mas, enquanto os personagens humanos falam abertamente sobre sexo, os vampiros recorrem à dissimulação. Remmick e seu clã usam linguagem polida e indireta para mascarar sua violência, como quando Remmick diz a Grace (Li Jun Li): “Eu até sei como você gosta de ser lambida.” O contraste entre a franqueza humana e a dissimulação vampírica reforça a tese do filme: a honestidade fortalece a comunidade; a evasão permite a predação.

Esse tema se estende além do sexo. O clube dos Gêmeos Smokestack é um espaço de expressão sem filtros — música, luto, amor e alertas sobre a Klan são todos compartilhados abertamente. Em contraste, a “comunhão” dos vampiros é uma hierarquia forçada, onde a individualidade é apagada.

O clímax do filme reforça essa ideia. Aqueles que prosperam — Sammie, Smoke, Mary e Stack — são os que se comunicam honestamente, mesmo quando isso dói. Aqueles que escondem — os vampiros, os membros da Klan — são destruídos.

“Pecadores” é um tecido de fé, desejo e resistência. Argumenta que a verdadeira sobrevivência não vem do isolamento, mas da comunidade — através de uma música que convoca os ancestrais, de um amor que desafia estereótipos, de palavras que se recusam a se esconder.

Num mundo que busca mercantilizar, demonizar ou apagar a cultura negra, “Pecadores” insiste na sacralidade da alegria, da dor e da conexão negras. É um filme que exige que seu público veja mulheres negras gordas como amantes, o blues como sagrado e a fala direta como revolucionária.

O futuro que imagina é aquele em que a comunidade é a fé suprema. A questão é: estamos prontos para acreditar nisso?

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