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Scarlett Johansson estreia como diretora com “Eleanor the Great”, um tributo à sensibilidade do cinema independente

Redação Culturize-se

Desde os 12 anos, Scarlett Johansson sabia que queria dirigir. Durante as filmagens de “O Encantador de Cavalos” (1998), seu sétimo filme como atriz, ela observava a maneira como Robert Redford conduzia os atores e pensava: “Quero fazer isso um dia”. Quase três décadas depois, Johansson realiza esse desejo com seu primeiro longa-metragem como diretora: “Eleanor the Great”.

Johansson, claro, não passou os últimos anos esperando. Duas vezes indicada ao Oscar, vencedora de um Tony e protagonista de grandes sucessos como a Viúva Negra da Marvel, ela consolidou uma carreira marcada pela versatilidade. Trabalhou com diretores como Christopher Nolan, Sofia Coppola, Jonathan Glazer, os irmãos Coen, Noah Baumbach e Wes Anderson — com quem retorna no Festival de Cannes deste ano em “O Esquema Fenício”.

No entanto, a oportunidade certa para estrear na direção só apareceu recentemente. O convite veio de sua amiga Celine Rattray, da Maven Screen Media, que lhe enviou um roteiro sobre uma mulher idosa e solitária, chamada Eleanor, que se muda para Nova York após a morte de sua melhor amiga. A protagonista? A veterana June Squibb, de 94 anos, indicada ao Oscar por “Nebraska” (2013).

Ao ler o roteiro, Johansson chorou — algo raro, segundo confidenciou em entrevista ao Deadline. A história a tocou profundamente e evocou memórias dos filmes independentes dos anos 1990, como “Crossing Delancey”, “Living Out Loud”, e algumas produções de Woody Allen da época. “Achei que poderia contar essa história”, lembra.

Os produtores da These Pictures, Jonathan Lia e Keenan Flynn, não hesitaram ao aceitar sua decisão de dirigir. Já a roteirista Tory Kamen, que lutava há oito anos para realizar o projeto, ficou surpresa com o entusiasmo de Johansson. “Ela usou seu prestígio para tornar possível um filme pequeno, focado em uma personagem de 95 anos. Isso diz muito sobre quem ela é como artista e pessoa”, afirma Kamen também ao Deadline.

Exibido com pompa e circunstância na mostra Un Certain Regard em Cannes, “Eleanor the Great” reúne, além de Squibb, a jovem Erin Kellyman (como Nina, estudante que se torna amiga de Eleanor), Chiwetel Ejiofor (pai de Nina) e Jessica Hecht (filha de Eleanor). Essa não é exatamente a primeira vez que Johansson assume a direção: ela já havia feito um curta em 2008 (These Vagabond Shoes, para o coletivo “Nova York, Eu Te Amo”), mas “Eleanor the Great” é sua estreia em longa-metragem. Para alguns, pode parecer improvável que uma das atrizes mais lucrativas de Hollywood escolha um drama silencioso como esse para começar. Mas, olhando para sua trajetória, faz todo o sentido.

Desafiando estereótipos

Johansson sempre evitou rótulos. Em vez de se acomodar no papel de “loira fatal”, ela buscou personagens complexos — como em “Sob a Pele” (2013) ou “História de um Casamento” (2019). Ela também enfrentou gigantes da indústria: em 2021, processou a Disney por quebra de contrato no lançamento híbrido de “Viúva Negra” e saiu vitoriosa, mantendo sua posição de produtora executiva em novos filmes da Marvel.

Outro episódio emblemático ocorreu em 2024, quando ela criticou publicamente a OpenAI por lançar uma voz que soava parecida com a sua, mesmo após ela recusar propostas formais para participar do projeto. Ao comentar sobre a importância de dar exemplo aos filhos, Johansson diz que deseja que eles sejam fiéis a si mesmos. “Minha filha tem 10 anos e disse que quer ser como eu. Mas meu foco é que eles se tornem quem são. Se eu servir de exemplo, melhor ainda.”

A história de “Eleanor the Great” se inspira parcialmente na avó de Kamen, Elinore, que se mudou para Manhattan após a morte de sua melhor amiga, Bessie — uma sobrevivente do Holocausto. A solidão e a busca por novos laços foram pontos de partida para o roteiro. “Não há muitos filmes que tratem do que é ser um sobrevivente do Holocausto no fim da vida. Foi uma honra contar essas histórias”, diz Kamen.

Johansson, que também tem origens judaicas e familiares perdidos no Holocausto, se conectou pessoalmente com o roteiro. “Eleanor tem algo de todas as nossas avós”, diz.

Squibb foi pensada desde o início para o papel. Quando aceitou participar, Johansson não hesitou: “Eu não faria esse filme sem ela”. O longa foi filmado em Nova York, cidade natal de Johansson. A diretora queria mostrar um lado realista da metrópole, apesar dos desafios logísticos. Um deles? Um dos sets ficava ao lado da casa de Taylor Swift, o que atraiu paparazzi — que, curiosamente, ignoraram Johansson no set, focando apenas na cantora.

O cronograma era apertado: a atriz sabia que precisava filmar logo, considerando a idade de Squibb. “Recebi o roteiro em agosto e disse: ‘Temos que fazer isso neste inverno’”, lembra. A produção quase desmoronou várias vezes, mas foi salva com a entrada da Sony Pictures Classics e da TriStar. “Foi perfeito. Eu não poderia pedir parceiros melhores.”

Na hora de decidir se Eleanor usaria bengala, Squibb deixou a decisão para Johansson. A diretora escolheu usá-la, para transmitir certa fragilidade à personagem — algo que a própria Squibb, cheia de energia, não exibia naturalmente. Squibb, por sua vez, elogia a postura firme da diretora: “Scarlett não busca aprovação. Ela sabe quem é e isso é raro. Ela é valente. Admiro isso”. Ambas compartilham histórias de mudanças tardias na vida — Squibb, por exemplo, deixou Nova York após 65 anos para viver em Los Angeles já na casa dos 80.

Para Johansson, o amor pelo cinema independente foi o que manteve tudo de pé. “Todos que trabalharam nesse filme o fizeram porque amavam o roteiro, não por dinheiro. Isso é o que há de mais bonito em fazer filmes assim.”

Com “Eleanor the Great”, Scarlett Johansson reafirma que seu lugar no cinema vai além das telas. Seja lutando por justiça contratual, se posicionando eticamente diante da tecnologia ou abraçando histórias delicadas e humanas, ela prova que sua voz como artista — e agora também como diretora — é das mais relevantes de sua geração.

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