Redação Culturize-se
Durante duas semanas do mês de maio, o Festival de Cannes transforma a Côte d’Azur no epicentro global da sétima arte. Em 2025, esse tradicional encontro de cinema ganha contornos ainda mais robustos e simbólicos. De um lado, a programação oficial do festival apresenta uma seleção vibrante que reflete o encontro entre o legado de cineastas consagrados e o ímpeto de novas vozes criativas. De outro, o Brasil, pela primeira vez País de Honra no Marché du Film, protagoniza uma presença histórica que articula cultura, indústria e diplomacia na maior vitrine internacional do setor audiovisual.
A edição deste ano de Cannes sinaliza uma troca geracional evidente, sem abrir mão da influência duradoura de veteranos que moldaram a paisagem do cinema contemporâneo. A seleção oficial equilibra estreias provocativas e retornos estrelados. A delegação americana, tradicionalmente central no glamour de Cannes, retorna com força. Tom Cruise apresenta “Missão Impossível: O Acerto Final”, enquanto Robert De Niro receberá uma Palma honorária pelos quase cinquenta anos de excelência, desde sua consagração com “Taxi Driver” (1976). Spike Lee, por sua vez, exibe “Highest 2 Lowest” fora de competição, uma releitura de “High and Low”, de Akira Kurosawa, estrelada por Denzel Washington e marcada pela interface entre cinema tradicional e plataformas de streaming, já que a obra estreia na Apple TV+ em setembro.
No coração da disputa pela Palma de Ouro, nomes como Lynne Ramsay, Wes Anderson, Joachim Trier e Kelly Reichardt despontam com obras que prometem ser tanto destaques críticos quanto favoritas de prêmios. Ramsay retorna com “Die, My Love”, uma adaptação de Ariana Harwicz protagonizada por Jennifer Lawrence e Robert Pattinson. Anderson, com “The Phoenician Scheme”, entrega mais um estudo visual meticuloso, enquanto Trier aposta em “Sentimental Value”, estrelado por Renate Reinsve e distribuído pela Neon, curadora de cinco vencedores consecutivos da Palma.
O festival também sinaliza avanços na representatividade: sete das obras da competição são dirigidas por mulheres, um feito relevante para a história do evento. Entre elas, Julia Ducournau retorna com “Alpha”, um híbrido entre body horror e drama sobre a epidemia de AIDS. Já Kristen Stewart e Scarlett Johansson fazem suas estreias como diretoras de longas, com “The Chronology of Water” e “Eleanor the Great”, respectivamente.
No campo das novas vozes e experimentações, títulos como “The History of Sound”, de Oliver Hermanus, e “Sound of Falling”, de Mascha Schilinski, abordam romances épicos e dramas multigeracionais. Ari Aster, por sua vez, amplia seu repertório com “Eddington”, um faroeste estrelado por Joaquin Phoenix e Emma Stone. E o brasileiro Kleber Mendonça Filho retorna a Cannes com “O Agente Secreto”, thriller político ambientado nos anos 1970, estrelado por Wagner Moura.
Seleção brasileira
É nesse ambiente de efervescência estética e cultural que o Brasil marca sua presença de maneira inédita no Marché du Film. Liderada pela ministra da Cultura, Margareth Menezes, a comitiva brasileira desembarca com o compromisso de promover a indústria nacional, apresentar talentos e estabelecer novas parcerias internacionais. A nomeação do Brasil como País de Honra é celebrada como um marco histórico, reflexo da retomada e fortalecimento do setor audiovisual desde 2023.
A agenda oficial conduzida pela ministra inclui a Festa de Abertura do Marché du Film, com pocket show de Luedji Luna, e a conferência “Ecossistema Audiovisual e as Instituições Brasileiras”. Além disso, Margareth Menezes se reúne com a delegação de 65 agentes do setor audiovisual brasileiro apoiados pelo Ministério da Cultura, entre cineastas, produtores e talentos que participam de programas estratégicos como Cannes Docs, Producers Network, Goes to Cannes e Co-Production Day.
Dois estandes ancoram a presença nacional: o principal, do projeto Cinema do Brasil (96m²), e um espaço compartilhado entre SPCine e RioFilme (37m²). Ambos funcionam como centros de articulação e promoção internacional. A presença brasileira no Marché é resultado da colaboração entre o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores, a ApexBrasil e a Embaixada do Brasil em Paris, e se insere nas celebrações dos 200 anos de relações diplomáticas entre Brasil e França.




Para Margareth Menezes, a escolha do Brasil como País de Honra coroa o protagonismo recente do audiovisual nacional, que se destaca internacionalmente desde a premiação de “Ainda Estou Aqui” no Oscar. “A nossa gestão entende que o setor audiovisual é uma indústria potente, uma poderosa ferramenta de soft power e um pilar fundamental da economia criativa. Por isso, o investimento que fazemos é histórico também”, destaca a ministra.
O secretário do Audiovisual, Joelma Gonzaga, reforça o papel estratégico da presença brasileira: “Estamos colhendo os frutos de um governo que reconhece a importância de investir cada vez mais em políticas para este setor. Estar no maior mercado de profissionais de cinema do mundo é uma oportunidade única de expandir conexões, fortalecer diálogos e mostrar ao mundo a diversidade e a criatividade do cinema brasileiro”.
A culminância da presença brasileira acontece no dia 18 de maio, quando Margareth Menezes prestigia a estreia mundial do novo filme de Kleber Mendonça Filho, na seleção oficial de Cannes. O filme, ambientado durante a ditadura militar, reforça a tradição do cineasta de unir narrativas políticas a uma estética refinada, como visto em “Bacurau” e “Aquarius”, também lançados no festival.
Além do impacto cultural, a estratégia brasileira no Marché é calcada em oportunidades concretas de negócios e coproduções. A robustez da delegação e a visibilidade institucional almejam ampliar o alcance da produção nacional, estimular acordos internacionais e consolidar o Brasil como parceiro de peso no cenário global.
Ao cruzar a potência estética de Cannes com a estratégia institucional da participação brasileira, a edição de 2025 representa não apenas um momento de celebração, mas também uma aposta clara no futuro do audiovisual, onde tradição e inovação se encontram sob o sol da Riviera Francesa.